Entre o Rascunho e o Mistério
Pelas lindas ruas de Lausanne, encontro caminhos e parques que parecem não ter fim. Há algo de silencioso e sagrado em caminhar por essas ladeiras — como se cada pedra, cada janela, cada sombra que desliza pelos muros soubesse mais da vida do que eu. Então me pego a pensar que toda essa beleza não surgiu do acaso. Foi criada. Alguém, em algum tempo, sonhou com isso. Um artista, um arquiteto, um jardineiro, um pedreiro... mãos humanas e “não humanas” moldaram o cenário que hoje me acolhe.
E, ao pensar nisso, percebo
o quanto o ser humano é também uma obra. Uma criação minuciosa, desenhada com
cuidado, cheia de engrenagens invisíveis e mistérios que nem a ciência consegue
traduzir por completo. É impossível acreditar que tamanha precisão, tamanha
delicadeza, tenha sido feita apenas para se desfazer no tempo. Seria um
desperdício imenso criar uma criatura capaz de amar, chorar, recordar e
imaginar — e depois apagá-la como se nunca tivesse existido.
Não, eu não posso crer
nisso. Mesmo que a biologia me diga o contrário, escolho acreditar que há mais.
Que esta vida é apenas o rascunho de algo maior — um esboço de um desenho ainda
inacabado, feito em traços suaves e provisórios.
Talvez o que vivemos aqui
seja apenas o ensaio do que seremos em outra dimensão. Um ensaio cheio de
imperfeições e rasuras, mas ainda assim belo, porque revela a intenção do
artista que nos criou.
E quando penso assim, cada
rua que percorro em Lausanne parece ganhar outro sentido. As ladeiras deixam de
ser apenas subidas cansativas e se transformam em metáforas. Os jardins bem
cuidados parecem jardins da alma. As fachadas antigas contam histórias de quem
também acreditou em algo além.
Talvez este mundo — com
toda a sua beleza, dor e transitoriedade — seja mesmo apenas o primeiro
capítulo de uma obra que ainda não terminou. E nós, caminhando distraídos pelas
ruas, somos apenas personagens tentando decifrar o esboço do criador, perdidos
entre o rascunho e o mistério.
Silvia Marchiori Buss
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