O Dia Esqueceu de Nascer
A Noite esperou.
Esperou como quem conhece o atraso do amado, mas ainda acredita no reencontro.
Deitou-se sobre o mundo com sua calma costumeira, espalhando o manto escuro e
as estrelas como quem arruma a casa antes da chegada dele — o Dia.
Havia aprendido, ao longo dos séculos, a medir o tempo pela respiração do
outro: ela chegava quando ele partia, ele surgia quando ela se despedia. Eram
eternos desencontros, e, mesmo assim, um não existia sem o outro.
Mas naquela manhã — ou
quase manhã — o Dia não veio.
Os galos cantaram em vão, o
orvalho se acumulou impaciente sobre as folhas, e o lago, órfão de luz,
permaneceu frio e opaco.
A Noite, silenciosa e calma, ficou.
Foi mais serena do que nunca, como se o mundo precisasse descansar um pouco
mais dessa correria de horas. Nem os cães latiram. As estrelas brilharam com um
certo pudor, temendo acordar o tempo.
Ela não se despediu. Ficou ali, vigiando o sono do mundo, como quem protege o
lugar do outro, guardando-lhe o espaço.
E foi só quando o Dia, com
cara de cansada, despontou no horizonte, que ela entendeu: ele se perdera por
aí, distraído, exausto de iluminar o mundo.
Mesmo assim, ela sorriu.
Não havia mágoa no seu olhar de sombra — apenas ternura.
O reencontro foi breve,
como sempre.
Ele veio trazendo de volta o rumor do cotidiano: o ranger das janelas, o canto
dos pássaros, os passos apressados das ruas, os risos dos que acordavam tarde
demais.
A Noite recuou, cedendo o céu, mas deixou um fio de si no ar — um resto de
brisa, um toque de penumbra.
Antes de partir, ainda lhe
disse baixinho, quase num sussurro que só as montanhas ouviram:
“Demoraste, amor. O mundo dormiu um pouco mais, e até o tempo repousou comigo.
Mas agora é tua vez de acordá-lo.”
O Dia, ainda pálido,
inclinou-se sobre ela.
E por um breve instante — aquele instante em que o céu não é mais escuro nem
claro —, os dois se tocaram.
Foi o suficiente para que o mundo renascesse.
E dizem por aí que, desde
então, toda vez que o amanhecer demora, é porque a Noite, por amor, tenta
segurar o Dia só mais um pouco —
para que o mundo descanse, e o tempo, por um instante, se lembre do que é
ternura.
Silvia Marchiori Buss
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