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Mostrando postagens de janeiro, 2026

O Amor Que Ficou Atrás

  Cristal não gostava da palavra superação. Soava como ordem. Como se a dor tivesse prazo, como se o amor pudesse ser encerrado com alguma dignidade administrável. Ela não superava. Ela acordava. E isso já era violento o suficiente. No começo, chamou de saudade. Era a palavra que cabia. Cabia nos olhares piedosos, nas mãos apertando as dela por segundos a mais, nas mensagens que diziam qualquer coisa. Saudade é uma palavra confortável para quem observa de fora. Mas não era só isso. A casa ficou errada depois que ele morreu. Não vazia — errada. Os objetos perderam a função exata. O sofá era grande demais. A mesa, longa demais. O silêncio não descansava. Ele rondava. Havia lugares onde o ar parecia mais pesado, como se a ausência tivesse densidade. Cristal seguia vivendo por automatismo. Levantava. Tomava banho. Vestia roupas limpas. O corpo fazia o que sabia fazer. A alma, não. A alma ficava sentada em algum canto interno, observando tudo com desconfiança. A raiva veio num...

A Dança Que Sustenta o Dia

Ela se movimenta pela casa com uma elegância que não pede plateia. Não anda: desliza. Cada passo faz a saia rodada desenhar um pequeno arco no ar, como se o tecido soubesse exatamente a hora de acompanhar o corpo. Há leveza ali, sim, mas não só. Há decisão. Há um jeito firme de ocupar o chão, mesmo quando tudo parece suave. Beleza sem esforço. Sutileza que não se explica. Uma compreensão silenciosa das coisas — do tempo, da casa, dele. Ele observa. Baixa devagar os óculos de leitura, mais para ganhar tempo do que para enxergar melhor. O que vê não precisa de foco. Aquilo acontece todos os dias, mas nunca se repete. O movimento dela tem algo de dança, embora não haja música. Ou talvez haja, mas só ele escute. Uma coreografia doméstica feita de gestos simples: virar-se para alcançar um objeto, ajeitar a saia, atravessar o corredor como quem sabe exatamente onde pisa. É quando entende — não com susto, mas com um peso manso — que aquela dança é a sua vida. Não a vida que se conta e...

Quando a Luz Apaga

Quando a luz apaga, ela não se assusta mais. No começo, sim. Houve um tempo em que o escuro vinha acompanhado de um aperto no peito, como se algo importante tivesse ficado do outro lado do dia. Mas agora, quando o interruptor falha ou o mundo resolve ficar quieto de repente, ela apenas espera. O escuro deixou de ser ameaça. Virou intervalo. A casa muda de som. O relógio continua marcando as horas, mas parece mais discreto. O vento encosta nas janelas com menos pressa. Sentada onde sempre senta, ela sente o próprio corpo ocupar o espaço com mais clareza — como se, sem luz, sobrasse mais dela mesma. Há pensamentos que só aparecem assim. Não são grandes revelações. São coisas pequenas demais para disputar atenção durante o dia. O jeito como aprendeu a ficar sozinha sem se sentir em falta. A habilidade recente de não responder a tudo. O direito de não entender. Ela não corre atrás de velas. Deixa os olhos se acostumarem. Descobre contornos onde antes havia certeza. O sofá não está ...

Quando a Árvore Perde o Fruto

  Ela acorda porque o dia chama. Não há drama nisso. Há hábito. Veste a roupa de trabalho com a mesma atenção de sempre, ajeita o cabelo diante do espelho sem se deter no reflexo e sai. O mundo a reconhece pelo que faz — e isso basta. Há tarefas esperando, horários, nomes, pequenas urgências que não admitem demora. Ela cumpre. No trabalho, ninguém percebe nada de diferente. Ela responde, entrega, resolve. Às vezes sorri. Às vezes se cala mais do que o necessário, mas silêncio também é uma forma de competência. As mãos sabem o caminho. O corpo sabe onde ficar. A mulher aprendeu a funcionar mesmo quando algo dentro não acompanha o ritmo. Há dias em que o peso vem sem aviso. Não pesa no corpo — pesa atrás dos olhos, no intervalo entre uma tarefa e outra, naquele segundo em que não há nada para fazer e tudo ameaça vir à tona. Ela não permite. Volta ao que precisa ser feito. O trabalho é uma margem segura. Na volta para casa, passa pela árvore. Sempre passa. Em outros tempos,...

Às Vezes Parece Que é Assim

  Tem dias em que a gente anda. Anda mesmo. Coloca o corpo para frente, o pé um na frente do outro, cumpre horários, atravessa ruas, resolve coisas pequenas e grandes. Anda. E ainda assim, no fim do dia, a sensação é de que voltou alguns passos. Como se o chão tivesse se movido por conta própria, como aquelas esteiras de aeroporto que empurram a gente para trás quando estão desligadas. Ninguém percebe. Por fora, tudo parece normal. A pessoa chega, responde, sorri quando precisa, assina papéis, lava a louça, atravessa a cidade. Mas por dentro existe um cansaço estranho, que não é físico. É um cansaço de direção. Não é falta de esforço. Também não é preguiça. É essa impressão incômoda de que, apesar do movimento, algo essencial não avança. Talvez seja porque algumas coisas não obedecem ao ritmo do corpo. O tempo anda mais rápido do que a coragem. A memória anda em círculos. E o desejo, às vezes, estaciona. Há momentos em que a gente tenta ser prático. Diz para si m...

O Tempo das Formigas

As formigas estavam ali antes que ela percebesse. Não chegaram — já ocupavam. Um risco escuro no chão claro, quase um defeito da casa. A mulher só notou quando parou. Não porque quis, mas porque o corpo pediu pausa. Olhou para baixo como quem olha para dentro de um pensamento ainda sem nome. A fila era precisa. Nenhuma pressa, nenhum atraso. Um desenho que se refazia a cada segundo sem nunca se repetir. Ela acompanhou com os olhos até perder o início e o fim. Gostou disso: não saber onde começava, não saber onde terminava. Sentou-se no chão. O frio subiu devagar pelas pernas. As formigas passaram perto do pé descalço sem desviar. Não havia medo nelas. Nem curiosidade. Apenas caminho. Carregavam quase nada — um pó, um fragmento, algo que só existia porque alguém deixou cair. Mesmo assim, seguiam curvadas, como se o peso fosse grande. A mulher reconheceu o gesto. O corpo inclinado para frente, a atenção inteira voltada para não deixar cair o que se leva. O dia avançou sem marca. ...

A Vida Em Obras

A vida não desaba de uma vez. Ela cede aos poucos, como uma casa antiga que estala à noite. Primeiro uma trinca fina na parede. Depois o rangido da porta que sempre fechou bem. Até que um dia o teto parece mais baixo e a gente entende: algo mudou para sempre. Não há sirenes quando a vida desmorona. O mundo segue funcionando. O ônibus passa no horário. O café esfria na xícara. As pessoas riem na fila do mercado. Só quem está dentro percebe o barulho surdo das coisas caindo por dentro. Ela percebeu isso num dia comum. Não houve anúncio, nem tragédia nova. Apenas acordou e sentiu que não sabia mais como sustentar o dia inteiro. Levantar da cama foi uma negociação. Escovar os dentes, um esforço. Existir, um aprendizado recém iniciado. No começo, tentou reconstruir tudo como era antes. Recolocou os móveis imaginários no mesmo lugar. Forçou os hábitos antigos. Repetiu frases conhecidas, como quem usa uma chave que já não encaixa. Não funcionou. A vida, quando cai, não aceita réplica. ...

" Raiva é o Medo Voltado Pra Trás"

Clara ouviu a frase por acaso, atravessada no meio da conversa, enquanto mexia o café já frio. “Raiva é o medo voltado pra trás”. Ela franziu a testa, como quem escuta uma música conhecida tocada em outro tom. — Não concordo — disse. — Raiva é raiva. Medo é outra coisa. Marcos não respondeu. Ficou olhando pela janela, acompanhando o movimento lento da rua, como se aquela frase não pedisse defesa. Clara detestava isso nele: a calma que não se justificava. Ela era feita de decisões rápidas. Andava com passos firmes, falava sem rodeios, ocupava o espaço que lhe aparecia. Quem a conhecia pouco dizia que ela era forte. Quem ficava mais tempo percebia que a força vinha sempre acompanhada de um estalo curto, um incômodo pronto para virar palavra dura. Clara se irritava com atrasos, com mudanças de planos, com respostas vagas. Com Marcos, a raiva aparecia fácil. Bastava um silêncio mais longo, um olhar distraído, uma frase dita fora do ritmo esperado. A raiva vinha antes de qualque...

Pequenas Cenas Que Ninguém Narra

  Ela está sentada à mesa do fundo de um café estreito, quase colada à janela. O vidro é antigo, um pouco opaco, e deixa ver apenas um trecho da calçada — exatamente onde as pessoas diminuem o passo, como se algo pudesse acontecer ali. Do lado de fora, um casal para diante do vidro. Não são jovens. Também não parecem velhos. Ele mantém uma das mãos no bolso do casaco; ela apoia as duas no braço dele, como quem se equilibra. Não falam. O abraço vem sem pressa parecendo ser mais por hábito do que outra coisa. Um ajuste conhecido. Dura pouco. Eles se soltam e seguem, cada um para um lado, sem olhar para trás. Mais adiante, ainda na calçada, outro casal. Esse discute. As palavras não atravessam o vidro, mas os gestos chegam inteiros. Ela fala com as mãos. Ele responde com o corpo fechado. Em algum ponto, ela diz algo curto. Ele não reage. Olha para o chão, atravessa a rua sem se despedir. Ela fica parada por um instante longo demais. Para quem passa, é só uma cena comum. Para eles,...

A Hora Que Não Existe

Ela vivia fora do país. Não foi essa frase que os separou — foi o que veio junto com ela. Entre os dois havia um oceano, mas isso era quase detalhe. O que realmente pesava eram as cinco horas de diferença. Enquanto ela acordava, ele já atravessava o dia. Quando ele começava a desacelerar, ela ainda estava inteira no começo. Não compartilhavam o mesmo sol, nem o mesmo calor, nem a mesma lua. Às vezes, nem o mesmo silêncio. Ele morava do lado de cá, na América, onde as tardes cansam o corpo e a noite chega como pedido de descanso. Ela vivia onde o dia se abria cedo demais, com uma luz que entrava inclinada pela janela e iluminava coisas que ele nunca veria. O relógio, em cada lugar, parecia contar histórias diferentes. Eles tentaram entender isso como se entende um mapa. Fizeram contas, ajustaram horários, anotaram equivalências. “Quando aqui for… aí já será…”. O papel ficou na mesa por um tempo, dobrado, amarelado, até virar só mais uma tentativa. Porque o amor não gosta de régua. ...

O Amor Que Não Morreu, Criou Asas

No mercado, ele empurrou o carrinho pelos corredores errados. Só percebeu quando parou diante da prateleira que ela costumava escolher. Ficou ali tempo demais, fingindo comparar rótulos. Pegou qualquer coisa. Colocou no carrinho. Andou mais alguns passos e parou de novo. Aquilo não fazia sentido. Voltou e deixou o produto fora do lugar, como se a desordem fosse um gesto permitido. A lista era curta. Sempre era. Ele ainda esquecia as mesmas coisas. Antes, isso virava uma observação distraída, um comentário feito sem importância. Agora, não virava nada. Em casa, guardou as compras em silêncio. O pão ficou aberto. A fruta amadureceu rápido demais. O leite quase escorreu da mão. Não era pressa. Era outra coisa. Um excesso que não sabia onde pousar. O casaco dela continuava no armário. Não ocupava espaço demais, mas também não cabia em outro lugar. Ele não mexia. Não por apego — por falta de motivo suficiente para tirá-lo dali. À noite, sentou-se no sofá e ligou a televisão sem so...

A Santa de Todas as Marias

  Santa Maria era uma cidade de tamanho médio, dessas que não se explicam por números. Não era pequena o bastante para caber inteira na memória, nem grande o suficiente para permitir o anonimato completo. Havia ruas largas, esquinas repetidas, praças onde o tempo se sentava para descansar. A cidade aprendia a existir no intervalo entre o que se dizia e o que ficava calado. Entre tantas mulheres chamadas Maria, havia uma que não se confundia. Não por qualquer traço extraordinário, mas por uma presença difícil de definir. Quando ela chegava, as conversas se ajustavam. Não cessavam — apenas encontravam outro ritmo. Era como se o ar reconhecesse alguém que sabia permanecer. Ninguém soube dizer quando começou. Talvez numa tarde comum, talvez numa ausência grande demais. Alguém disse o nome dela com cuidado excessivo. Outro repetiu. Logo, Maria deixou de ser apenas uma entre tantas. Chamaram-na, sem solenidade, de Santa de Todas as Marias. O título não veio de fé declarada, nem d...

Ainda Era Ontem

  Ainda era ontem quando Elisa percebeu que o tempo não tinha avançado como prometera. Não houve alarme, nem pressentimento. Foi um detalhe mínimo: o café esfriou na xícara antes de ela lembrar de beber. O vapor subiu, dissipou-se, e o gosto amargo ficou intacto — como se tivesse sido preparado no dia anterior. O apartamento permanecia igual. As cadeiras, a mesa, o corredor estreito que levava ao quarto. Nada fora movido. Mesmo assim, havia algo fora do lugar. Uma dobra no ar, talvez. Um atraso. Ela se levantou e abriu a janela. A rua fazia seu ruído habitual, carros passando, alguém discutindo ao telefone, um cachorro latindo em algum ponto invisível. Tudo seguia. Só ela parecia suspensa. Miguel costumava dizer que o ontem é um lugar confortável demais para se morar. Dizia com ironia, nunca com conselho. Ele tinha esse jeito de falar coisas sérias como quem comenta o clima. Não gostava de conclusões. Elisa gostava disso nele. Gostava do modo como ele não fechava portas. Mi...

A Vida Em Curva

Ela voltou ao mesmo lugar sem perceber. Não reconheceu de imediato, mas o corpo reconheceu antes. A calçada, o tempo do semáforo, o jeito de atravessar sem olhar. A conversa interrompida sempre no mesmo ponto. Não era repetição. Era retorno. A vida não seguia em linha reta; descrevia curvas, como se quisesse testar se agora ela pisaria diferente. Por muito tempo, chamou isso de destino. Era mais fácil. Destino não cobra escolha, não pede revisão. Mas naquela tarde comum — sem aviso, sem metáfora — algo saiu do eixo. Um cansaço que não pedia descanso. Pedia outra coisa. Ainda sem nome. Os erros não vieram como culpa. Vieram como fatos. Ter ficado quando já era ausência. Ter falado demais para quem não escutava. Ter se calado para não perder. Ter confundido cuidado com permanência. Ter chamado de amizade o que era apenas costume. Houve decisões feitas por medo. Outras, por apego. Algumas por esperança demais. Ela acreditou que insistir era virtude. Que suportar era sinal de am...

O Caos No Tempo

  Ela percebe no meio de um gesto errado. Não é distração. É deslocamento. O corpo está num ponto. O pensamento, em outro. Eu tento juntar. Não encaixa. Nunca encaixa de primeira. O tempo tem esse vício de espalhar as partes. Ela se levanta sem decisão. Eu sigo porque o corpo já foi. O dia começa antes de qualquer acordo. Nada parece grave. Isso é o pior. As coisas continuam funcionando: água, luz, rua, gente. O defeito não aparece por fora. É um erro interno, fino, persistente. Como se o tempo tivesse sido montado com uma peça de outro modelo. Eu penso em ontem. Ela sente amanhã. Ao mesmo tempo. O presente fica curto demais para sustentar os dois. O tempo não avança. Ele se empilha. Camadas mal distribuídas, pressionando por dentro. Algumas lembranças não se movem. Outras passam rápido demais e deixam apenas um rastro sujo. Não há lógica. Nunca houve. Ela tenta organizar. Eu já sei que não adianta. Antes, depois, agora — palavras frágeis para uma coisa que não res...

Outros Braços Que Te Abraçam

Ela saiu levando pouca coisa. Uma bolsa média, o casaco cinza, a chave que não devolveu. Fechou a porta sem bater, como quem ainda respeita o espaço — mesmo já não pertencendo a ele. Ele ficou parado no corredor mais tempo do que faria sentido explicar. Não esperava que ela voltasse. Apenas não sabia ainda para onde ir com o corpo. O apartamento parecia ligeiramente desalinhado, como se tivesse sido girado alguns graus para a esquerda enquanto ele não via. Na cozinha, a xícara usada naquela manhã continuava sobre a pia. Um resto de café frio, a marca discreta da boca na borda. Ele pensou em lavar. Depois pensou em sentar-se. Acabou abrindo a janela. O dia seguia normal demais para alguém que acabara de perder um eixo. Nos primeiros dias, o corpo reagiu antes do pensamento. A mão buscava outra na cama. O ouvido se mantinha atento a ruídos que já não tinham origem. Ao atravessar o corredor à noite, desviava do lugar onde ela costumava largar os sapatos. Só depois lembrava que não ...

Entre o Gesto e a Queda

Aprendi tarde que o gesto vem antes da queda. Sempre vem. É mínimo, quase indecifrável. Um copo que fica na pia porque não vale o esforço. Um sapato fora do lugar. Um pensamento interrompido no meio, como se não merecesse conclusão. A queda não anuncia chegada — ela se prepara em silêncio. Naquele dia, eu ainda funcionava. Saí de casa com o corpo vestido de rotina. Cumprimentei o porteiro com a cabeça, como quem confirma a própria existência. Ele respondeu igual. O acordo estava mantido. O gesto foi atravessar a rua fora da faixa. Não por pressa. Por cansaço. Um cansaço sem drama, desses que não pedem socorro. Nenhum carro freou. Ninguém gritou. Mesmo assim, algo se deslocou dentro de mim — como quando uma peça solta não derruba o móvel, apenas o condena. Eu trabalhava com palavras. Ainda trabalho. Mas naquele período elas tinham perdido densidade. Estavam corretas, alinhadas, disponíveis. Não sustentavam nada. Escorriam antes de tocar. Eu escrevia como quem empilha superfícies l...

Essa Alma Que Me Habita

Ela não veio comigo ao nascer. Chegou depois, quando eu já sabia atravessar dias sem perguntar demais. Durante muito tempo, vivi correta. Funcionava. Horários, compromissos, respostas. O corpo cumpria, a cabeça resolvia. Nada faltava. Nada sobrava. A alma apareceu quando fui desamparada de alguma coisa que nunca aprendi a nomear. Não foi anúncio nem dor clara. Foi um deslocamento pequeno, quase invisível. Um fim de tarde comum demais, a rua sem importância, o corpo cansado antes da hora. Fiquei parada um segundo a mais do que o necessário, como quem perdeu o lugar na própria fila. Não entendi. Apenas senti. Não como descoberta — como sobra. Algo que sempre esteve ali e só se fez notar quando deixei de caber inteira no que vinha sendo. Desde então, ela me habita.   Há dias em que penso tê-la perdido. Nesses dias tudo anda rápido demais. Sou eficiente, objetiva, quase limpa. Resolvo, respondo, avanço. O mundo gosta mais de mim assim. Mas à noite, quando o corpo cede, ...

Quando o Encantamento Passa

  Ela percebeu numa terça-feira comum, dessas que não pedem atenção. A água do café ferveu demais, o rádio falava sozinho na cozinha, e a manhã seguia seu curso sem tropeços. Ainda assim, havia algo fora do lugar. Não era tristeza. Tampouco decepção. Era uma ausência sem nome, discreta, quase educada. O encantamento não foi embora de uma vez. Ele se esfarelou. Primeiro, deixou de habitar os detalhes — o jeito como ele encostava a mão no batente da porta, a pausa antes de responder, o riso curto que vinha do fundo do peito. Depois, começou a falhar nos rituais: o beijo automático, a pergunta repetida, a escuta pela metade. Ela tentou não notar. Fingiu que aquilo era cansaço, fase, excesso de dias iguais. Continuou dobrando roupas, respondendo mensagens, atravessando ruas. Mas o corpo, esse, não mente por muito tempo. O corpo percebe quando algo que sustentava começa a faltar. Houve uma noite em que se sentaram lado a lado no sofá, e o silêncio entre eles não pediu explicação. ...

Não Era Só Saudade

Cristal aprendeu cedo que o silêncio tem camadas. No começo, ele era apenas o eco da casa maior do que antes. Depois, virou presença. Um tipo de ruído contínuo que não fazia som, mas ocupava tudo. Chamou aquilo de saudade. Era a palavra possível. A palavra que cabia nas conversas breves, nos abraços constrangidos, nas mensagens que chegavam aos poucos e depois rareavam. Saudade era aceitável. Saudade era esperada. Mas não era só isso. Havia manhãs em que Cristal acordava antes do despertador, não por ansiedade, mas por hábito. Ficava alguns segundos de olhos abertos, esperando ouvir um movimento que não vinha mais. O corpo ainda demorava a aceitar a ausência. A cabeça já sabia. O corpo insistia. Levantava, fazia café para uma pessoa só — esse detalhe nunca deixava de doer — e deixava a outra xícara no armário. Não era um gesto consciente. Apenas não conseguia se livrar dela. A raiva apareceu sem aviso. Foi num dia banal, desses que não ficam na memória. Tentava abrir um po...

Luz Que Não Amanhece

  Ela não queria ser mariposa. Não aquela que gira em círculos, encantada pela lâmpada acesa no meio da noite. A luz aquece um pouco, engana os olhos, promete dia. Ela ri. Ri enquanto gira, como quem tenta convencer o próprio corpo de que está segura. Mas cada volta cansa. Cada aproximação dói mais do que parece. As asas da mariposa não queimam de uma vez. Primeiro ressecam. Depois perdem pó. Depois perdem sentido. Ela insiste, mesmo assim. Porque a luz parece chamar. Porque parar é admitir que foi enganada. Ela gira até a exaustão. E quando cai, não entende o erro. Acreditava na claridade. Acreditava que bastava se aproximar mais um pouco. Via outras fazendo o mesmo. Chamavam aquilo de escolha. Chamavam aquilo de amor à luz. Chamavam aquilo de destino. Ninguém falava da dor circular, do cansaço sem avanço, da ferida que não vira cicatriz. Mas a luz artificial não nasce. Ela acende. E apaga. Ela não queria viver orbitando algo que não amanhece. Queri...

Amor do Avesso

  Eles se amaram como quem aprende a andar de costas. Não por medo do caminho, mas por respeito ao chão. Cada passo era um cálculo silencioso, uma tentativa de não pisar onde o outro ainda doía. Não avançavam — permaneciam. E isso, para eles, já era movimento suficiente. Ela chegou primeiro ao silêncio. Não porque quisesse, mas porque entendeu cedo que algumas palavras só atrapalham. Ele demorou mais. Tentou preencher os vazios com frases, com explicações, com uma espécie de coragem improvisada. Até perceber que o silêncio dela não era ausência — era espaço. Quando entendeu, trouxe uma cadeira e ficou. O amor deles não se anunciava. Não pedia palco, não buscava testemunhas. Existia nos detalhes quase invisíveis: no copo esquecido sobre a mesa, sempre no mesmo lugar; no casaco pendurado por hábito, mesmo nos dias quentes; no rádio ligado baixo demais para ser música, alto o suficiente para não ser solidão. Amor do avesso é quando o abraço acontece por dentro. Quando a mão nã...

A Mentira Travestida de Verdade

  Ela não começou mentindo. Começou escolhendo o que dizer quando alguém perguntava. Havia perguntas que vinham por educação, outras por curiosidade, poucas por real interesse. Ela aprendeu a reconhecer a diferença pelo tom, pelo tempo que o outro sustentava o olhar. Na primeira vez, foi numa cozinha alheia. Café recém passado, a colher batendo na xícara, alguém encostado no balcão esperando resposta. — E você, como está? Ela respirou fundo, não por emoção, mas para ganhar segundos. Disse “estou bem” porque era curto, porque cabia naquele espaço entre um gole e outro. Ninguém pediu detalhes. O assunto mudou. Funcionou. Depois vieram outras ocasiões. Um almoço de domingo, cadeiras arrastando, pratos sendo servidos. Alguém perguntou sobre decisões antigas, sobre escolhas que supostamente tinham sido feitas. Ela disse que sim, que tinha sido assim mesmo. Que tinha optado. Que achava melhor daquele jeito. Enquanto falava, partia a carne em pedaços pequenos demais, como se isso aj...