O Amor Que Ficou Atrás
Cristal não gostava da palavra superação. Soava como ordem. Como se a dor tivesse prazo, como se o amor pudesse ser encerrado com alguma dignidade administrável. Ela não superava. Ela acordava. E isso já era violento o suficiente. No começo, chamou de saudade. Era a palavra que cabia. Cabia nos olhares piedosos, nas mãos apertando as dela por segundos a mais, nas mensagens que diziam qualquer coisa. Saudade é uma palavra confortável para quem observa de fora. Mas não era só isso. A casa ficou errada depois que ele morreu. Não vazia — errada. Os objetos perderam a função exata. O sofá era grande demais. A mesa, longa demais. O silêncio não descansava. Ele rondava. Havia lugares onde o ar parecia mais pesado, como se a ausência tivesse densidade. Cristal seguia vivendo por automatismo. Levantava. Tomava banho. Vestia roupas limpas. O corpo fazia o que sabia fazer. A alma, não. A alma ficava sentada em algum canto interno, observando tudo com desconfiança. A raiva veio num...