A Dança Que Sustenta o Dia
Ela se movimenta pela casa com uma elegância que não pede plateia. Não anda: desliza. Cada passo faz a saia rodada desenhar um pequeno arco no ar, como se o tecido soubesse exatamente a hora de acompanhar o corpo. Há leveza ali, sim, mas não só. Há decisão. Há um jeito firme de ocupar o chão, mesmo quando tudo parece suave. Beleza sem esforço. Sutileza que não se explica. Uma compreensão silenciosa das coisas — do tempo, da casa, dele.
Ele
observa.
Baixa
devagar os óculos de leitura, mais para ganhar tempo do que para enxergar
melhor. O que vê não precisa de foco. Aquilo acontece todos os dias, mas nunca
se repete. O movimento dela tem algo de dança, embora não haja música. Ou
talvez haja, mas só ele escute. Uma coreografia doméstica feita de gestos
simples: virar-se para alcançar um objeto, ajeitar a saia, atravessar o
corredor como quem sabe exatamente onde pisa.
É
quando entende — não com susto, mas com um peso manso — que aquela dança é a
sua vida.
Não
a vida que se conta em datas ou fotografias, mas a outra: a que acontece
enquanto nada parece importante. A vida que mora nos intervalos, nos gestos que
ninguém aplaude, no barulho quase imperceptível do tecido roçando as pernas. E
pensa, sem querer, no vazio que ficaria se aquele movimento cessasse. Se a casa
parasse de ter esse ritmo. Se ela fosse embora. Se morresse. Se simplesmente
decidisse partir.
A
palavra “perda” não chega a se formar inteira. Vem fragmentada, como um
pensamento que ele afasta com cuidado, mas que insiste em ficar. Perder isso.
Perder esse dentro da casa. Perder esse jeito de existir que dá sentido ao
resto.
Ele
fecha o caderno sem ruído. Levanta-se.
Aproxima-se
por trás, sem interromper o gesto dela, e a envolve num abraço que não pede
resposta imediata. Encosta o rosto no cabelo, faz um carinho breve, quase
tímido — como quem agradece em silêncio por algo que não sabe nomear. Ela não
se vira. Apenas aceita. Continua sendo casa.
Ele
solta devagar, volta para a mesa, recoloca os óculos.
E
escreve.
Não
sobre o medo, nem sobre a perda. Escreve porque ela está ali. Porque a dança
continua. Porque, enquanto houver esse movimento leve atravessando os dias,
ainda há o que dizer.
Silvia
Marchiori Buss
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