Quando a Luz Apaga
Quando a luz apaga, ela não se assusta mais.
No
começo, sim. Houve um tempo em que o escuro vinha acompanhado de um aperto no
peito, como se algo importante tivesse ficado do outro lado do dia. Mas agora,
quando o interruptor falha ou o mundo resolve ficar quieto de repente, ela
apenas espera. O escuro deixou de ser ameaça. Virou intervalo.
A
casa muda de som. O relógio continua marcando as horas, mas parece mais
discreto. O vento encosta nas janelas com menos pressa. Sentada onde sempre
senta, ela sente o próprio corpo ocupar o espaço com mais clareza — como se,
sem luz, sobrasse mais dela mesma.
Há
pensamentos que só aparecem assim. Não são grandes revelações. São coisas
pequenas demais para disputar atenção durante o dia. O jeito como aprendeu a
ficar sozinha sem se sentir em falta. A habilidade recente de não responder a
tudo. O direito de não entender.
Ela
não corre atrás de velas. Deixa os olhos se acostumarem. Descobre contornos
onde antes havia certeza. O sofá não está exatamente onde parecia estar. A mesa
é maior do que lembrava. O coração bate num ritmo menos apressado, menos atento
ao que se espera dele.
Durante
muito tempo, ela manteve tudo aceso. Explicou demais, clareou demais, segurou
as pontas como se isso fosse um dever. No escuro, aprende a confiar no que
sente sem precisar ver. Aprende que a vida também acontece quando não está
clara, quando não se organiza, quando não pede registro.
O
celular fica de lado. Não há urgência que resista ao silêncio.
Quando
a luz volta, não muda muita coisa.
Ela
continua sentada por alguns segundos, como se ainda estivesse no escuro. Depois
se levanta, ajeita uma almofada fora do lugar, empurra a cadeira com o pé.
O
dia segue.
Mais
tarde, quando ninguém percebe, ela apaga a luz de novo — não por necessidade,
mas porque aprendeu que nem tudo precisa estar aceso o tempo todo.
Silvia
Marchiori Buss
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