Outros Braços Que Te Abraçam
Ela saiu levando pouca coisa.
Uma bolsa média, o casaco cinza, a chave que não devolveu. Fechou a porta sem
bater, como quem ainda respeita o espaço — mesmo já não pertencendo a ele.
Ele ficou parado no
corredor mais tempo do que faria sentido explicar. Não esperava que ela
voltasse. Apenas não sabia ainda para onde ir com o corpo. O apartamento
parecia ligeiramente desalinhado, como se tivesse sido girado alguns graus para
a esquerda enquanto ele não via.
Na cozinha, a xícara
usada naquela manhã continuava sobre a pia. Um resto de café frio, a marca
discreta da boca na borda. Ele pensou em lavar. Depois pensou em sentar-se.
Acabou abrindo a janela. O dia seguia normal demais para alguém que acabara de
perder um eixo.
Nos primeiros dias, o
corpo reagiu antes do pensamento. A mão buscava outra na cama. O ouvido se
mantinha atento a ruídos que já não tinham origem. Ao atravessar o corredor à
noite, desviava do lugar onde ela costumava largar os sapatos. Só depois lembrava
que não havia mais por que desviar.
Com o tempo, a casa
aprendeu novos silêncios.
Não os vazios — esses são fáceis de reconhecer —, mas os silêncios ocupados: a
ausência de uma pergunta, de um comentário banal, de um riso curto enquanto a
água fervia. Coisas que não fazem falta individualmente, mas que, juntas,
sustentavam o dia.
Ele passou a adiar
pequenos hábitos. Deixava o rádio desligado. Demorava para apagar a luz. Vestia
sempre a mesma camisa em casa. Não era saudade declarada. Era uma tentativa
quase técnica de manter o mundo previsível.
Foi numa tarde comum que
o pensamento se organizou.
Não veio como choque. Veio como constatação.
Outros braços a
abraçavam.
A ideia não trouxe
imagens nítidas. Apenas um ajuste interno, como quando se aceita uma regra nova
sem concordar com ela. Alguém ocupava agora o espaço exato onde ele costumava
repousar a mão. Alguém aprendia — talvez sem saber — o ritmo da respiração dela
quando o dia tinha sido longo.
Ele não sentiu raiva.
Isso o surpreendeu. Sentiu algo mais próximo de um deslocamento. Como se
tivesse chegado atrasado a um lugar que ainda reconhecia, mas que já não lhe
pertencia.
Na rua, começou a
observar as pessoas com atenção excessiva. Reparava em como alguns corpos se
encostavam sem necessidade. Como outros mantinham uma distância respeitosa
mesmo estando juntos. Aprendeu a identificar o momento exato em que um braço
envolve o outro não por hábito, mas por cuidado.
À noite, sentava-se no
escuro. Não era tristeza. A luz parecia expor demais o que não precisava ser
visto. Às vezes falava sozinho, frases incompletas, sem destinatário. Testava a
própria voz, como quem confirma que ainda está ali.
Houve um dia em que a
viu de longe. Ela caminhava ao lado de alguém. Não se tocavam. Ainda assim,
havia uma inclinação quase imperceptível do corpo, uma confiança silenciosa no
ritmo do outro. Ele não precisou confirmar nada. Algumas coisas se anunciam antes
do gesto.
Voltou para casa
devagar.
Abriu uma gaveta que evitava. Guardou o que encontrou sem pressa. Um papel
esquecido, uma fotografia fora de foco, um objeto pequeno cujo uso já não
lembrava direito. Não dramatizou. Dobrou o que era dobrável. Deixou o resto
onde estava.
Com o tempo, o
pensamento perdeu urgência. Continuou existindo, mas sem insistir. Ele passou a
aceitar que há presenças que não falham — apenas seguem outro caminho. E que
nem todo amor deixa ruínas; alguns deixam apenas um leve desajuste, como um
móvel fora do lugar que ninguém mais nota.
Às vezes, ainda pensa
nos braços que a abraçam.
Não com ciúme. Com uma curiosidade contida. Pergunta-se se percebem quando ela
se cala. Se sabem o que fazer quando o silêncio dela pede cuidado, não
pergunta.
Ele nunca terá essas
respostas.
O que sentia não era uma
dor evidente, não era a perda anunciada, mas a vida continuando em outro corpo
— enquanto ele aprende, devagar, a ocupar o próprio espaço sem ela.
Silvia Marchiori Buss
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