Não Era Só Saudade
Cristal aprendeu cedo que o silêncio tem camadas.
No começo, ele era apenas o eco da casa maior do que antes. Depois, virou
presença. Um tipo de ruído contínuo que não fazia som, mas ocupava tudo.
Chamou aquilo de
saudade. Era a palavra possível. A palavra que cabia nas conversas breves, nos
abraços constrangidos, nas mensagens que chegavam aos poucos e depois rareavam.
Saudade era aceitável. Saudade era esperada.
Mas não era só isso.
Havia manhãs em que
Cristal acordava antes do despertador, não por ansiedade, mas por hábito.
Ficava alguns segundos de olhos abertos, esperando ouvir um movimento que não
vinha mais. O corpo ainda demorava a aceitar a ausência. A cabeça já sabia. O
corpo insistia.
Levantava, fazia café
para uma pessoa só — esse detalhe nunca deixava de doer — e deixava a outra
xícara no armário. Não era um gesto consciente. Apenas não conseguia se livrar
dela.
A raiva apareceu sem
aviso.
Foi num dia banal,
desses que não ficam na memória. Tentava abrir um pote de vidro, desses
teimosos, e a tampa não cedia. Girou com força, bateu levemente na pia,
respirou fundo. Antes, ele teria aberto com um sorriso curto, quase distraído.
Agora, não havia ninguém.
— Você não tinha o
direito de morrer — disse em voz baixa.
A frase a assustou. Não
pela ousadia, mas pela verdade crua que carregava. Sentou-se à mesa, o pote
esquecido, as mãos apoiadas como se precisasse se ancorar. Não chorou. A raiva
não vem molhada. Ela vem seca, firme, quase racional.
Cristal o amava. Isso
nunca esteve em dúvida. Mas junto do amor, crescia uma fúria difícil de
admitir. Raiva por ter sido deixada para trás com tudo. As memórias, as
escolhas, os dias longos. Raiva porque ele escapara do esforço de continuar
vivendo, enquanto ela precisava aprender, sozinha, a reorganizar o mundo.
Havia decisões pequenas
que agora pesavam como grandes. Consertos simples. Papéis. Datas. A escolha de
um filme à noite sem alguém para discordar. Coisas que, antes, eram divididas
sem cerimônia e agora exigiam dela uma espécie de coragem diária.
O corpo também
reclamava. Mudava aos poucos, sem testemunha. O tempo marcava presença nela —
nas dores novas, no cansaço diferente, na percepção aguda de que envelheceria
sozinha. Isso também a enfurecia. Ele ficaria para sempre do jeito que a
memória congelou. Ela seguiria.
Às vezes, Cristal falava
com ele como quem cobra uma dívida.
— Não foi isso que a
gente combinou.
A frase ficava suspensa no ar da sala, sem resposta, sem eco. Apenas parada,
como tudo desde que ele partira.
Havia culpa, claro. Uma
culpa ensinada. Porque ninguém fala que o luto pode conter raiva. Dizem que é
só amor, só dor, só lembrança. Ninguém avisa que sentir raiva de quem morreu
não diminui o amor — apenas o torna humano.
Em alguns dias, a
saudade vencia. Em outros, era a fúria que tomava espaço. Cristal aprendeu que
o luto não é uma linha reta. É um campo irregular, cheio de buracos invisíveis.
Um passo em falso e tudo vem à tona de novo.
Não era só saudade.
Era amor sem destino.
Era raiva por continuar aqui.
Era o peso de viver quando o outro não pôde.
E, mesmo assim, ela
seguia. Não por superação, nem por promessa de felicidade. Seguia porque não
havia alternativa. E porque, em algum lugar silencioso dentro dela, ainda havia
um vínculo que nem a morte conseguiu romper — mesmo ferido, mesmo atravessado
pela raiva, mesmo imperfeito.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário