O Tempo das Formigas
As formigas estavam ali antes que ela percebesse. Não chegaram — já ocupavam. Um risco escuro no chão claro, quase um defeito da casa. A mulher só notou quando parou. Não porque quis, mas porque o corpo pediu pausa. Olhou para baixo como quem olha para dentro de um pensamento ainda sem nome.
A
fila era precisa. Nenhuma pressa, nenhum atraso. Um desenho que se refazia a
cada segundo sem nunca se repetir. Ela acompanhou com os olhos até perder o
início e o fim. Gostou disso: não saber onde começava, não saber onde
terminava.
Sentou-se
no chão. O frio subiu devagar pelas pernas. As formigas passaram perto do pé
descalço sem desviar. Não havia medo nelas. Nem curiosidade. Apenas caminho.
Carregavam
quase nada — um pó, um fragmento, algo que só existia porque alguém deixou
cair. Mesmo assim, seguiam curvadas, como se o peso fosse grande. A mulher
reconheceu o gesto. O corpo inclinado para frente, a atenção inteira voltada
para não deixar cair o que se leva.
O
dia avançou sem marca. Um silêncio ocupado. As formigas iam e vinham. Ela
também, mas menos. Levantou para beber água, voltou. A fila permanecia. Mudara
um pouco o traçado, um desvio mínimo, como se tivesse aprendido algo enquanto
ela se ausentou.
À
noite, apagou a luz. No escuro, soube que continuavam. Havia coisas que não
dependiam de serem vistas.
Na
manhã seguinte, foi direto ao chão. Estavam em outro ponto. Um novo risco. A
casa parecia maior com aquelas pequenas presenças, mais atravessada, menos
imóvel.
Pensou
em quantas vezes o próprio caminho fora redesenhado sem aviso. Em quantas vezes
se adaptara sem perceber. Em quantas vezes o obstáculo não era o mundo, mas
algo colocado por ela mesma.
Às
vezes, esmagava uma. Não por intenção — um passo distraído, o corpo grande
demais. A interrupção seca. A fila se fechava logo depois, rearranjava-se,
seguia. Nada ficava suspenso por muito tempo.
Isso
a detinha mais do que qualquer ideia de permanência.
Passou
a medir o dia pelo ritmo delas. Não pelas horas. Quando a fila rareava, a luz
já estava baixa. Quando surgia mais densa, o chão ainda guardava o frio da
manhã. O relógio perdeu importância.
Houve
um dia em que deixou uma migalha. Não como gesto, apenas como resto. As
formigas encontraram. O movimento aumentou. O trabalho também. Nenhuma hesitou.
Mais
tarde, a migalha não estava mais ali. O caminho afinou. Seguiu.
Abriu
a janela. O vento entrou, desfez linhas, espalhou corpos mínimos. Algumas se
perderam. Outras pararam. Outras começaram de novo em outro lugar. A casa
respirou diferente.
Depois
fechou a janela.
O
risco no chão levou mais tempo para se refazer. Algumas linhas não voltaram.
Outras surgiram onde antes não havia passagem. A casa ficou em suspenso, como
se aguardasse uma decisão que não viria.
Ela
não interferiu.
Sentou
outra vez no chão. O frio já não surpreendia. Uma formiga atravessou o dorso de
sua mão, leve demais para pedir reação. Ela permaneceu imóvel até que o caminho
se completasse.
Mais
tarde, a luz mudou. A fila rareou. O chão voltou a parecer apenas chão.
Ainda
assim, quando se levantou, cuidou para não apagar o que talvez ainda estivesse
ali.
Silvia
Marchiori Buss
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