O Amor Que Ficou Atrás
Cristal não gostava da palavra superação. Soava como ordem. Como se a dor tivesse prazo, como se o amor pudesse ser encerrado com alguma dignidade administrável. Ela não superava. Ela acordava.
E isso já era violento o suficiente.
No
começo, chamou de saudade. Era a palavra que cabia. Cabia nos olhares piedosos,
nas mãos apertando as dela por segundos a mais, nas mensagens que diziam
qualquer coisa. Saudade é uma palavra confortável para quem observa de fora.
Mas não era só isso.
A
casa ficou errada depois que ele morreu. Não vazia — errada. Os objetos
perderam a função exata. O sofá era grande demais. A mesa, longa demais. O
silêncio não descansava. Ele rondava. Havia lugares onde o ar parecia mais
pesado, como se a ausência tivesse densidade.
Cristal
seguia vivendo por automatismo. Levantava. Tomava banho. Vestia roupas limpas.
O corpo fazia o que sabia fazer. A alma, não. A alma ficava sentada em algum
canto interno, observando tudo com desconfiança.
A
raiva veio num dia sem importância.
Ela tentava abrir um pote. A tampa resistia. Girou com força, sentiu a pele da
mão arder, perdeu a paciência.
—
Abre essa porcaria — disse, como se ele ainda estivesse ali.
E
então entendeu.
Não era o pote.
Era ele não estar.
—
Você me deixou — falou em voz alta, e não houve delicadeza nenhuma nisso.
A
frase não tinha poesia. Não tinha respeito. Era acusação pura. Cristal sentou
com o pote fechado à frente, como uma prova irrefutável da ausência. Não
chorou. A raiva não pede permissão para sair pelos olhos. Ela fica no corpo,
endurece os músculos, aperta o maxilar.
Ela
o amava. Amava com uma lealdade que não diminuiu nem depois da morte. Mas junto
do amor crescia algo feio, mal-visto, impronunciável em público: ressentimento.
Ressentimento
porque ele morreu primeiro.
Porque escapou.
Porque não precisaria atravessar os dias seguintes.
Cristal
atravessava tudo sozinha. As decisões pequenas que ninguém percebe. As contas.
As escolhas banais. O peso de decidir até o que comer sem alguém para dividir o
cansaço. A vida ficou excessivamente concreta.
O
corpo dela mudou. E isso a enfurecia. O tempo avançava sem testemunha. Dores
novas. Um cansaço que chegava antes. O espelho devolvia um rosto que ele não
conheceria. Ele ficaria congelado na memória. Ela, não.
À
noite, às vezes, falava com ele sem cuidado algum.
—
Não era assim.
— A gente não combinou isso.
— Você foi covarde.
A
última frase sempre a fazia estremecer. Não porque acreditasse totalmente nela,
mas porque uma parte sua acreditava. E isso a enchia de culpa. Porque amar
alguém morto parece exigir santidade. E Cristal estava longe disso.
Havia
dias sublimes, mesmo assim. Dias em que a luz atravessava a janela num ângulo
exato. Em que uma música antiga surgia por acaso e, por um segundo, tudo se
alinhava. Não felicidade. Alinhamento. Como se o mundo dissesse: ainda há algo
respirável aqui.
Esses
instantes não a salvavam. Mas sustentavam.
O
luto, Cristal aprendeu, não é feito só de lágrimas e ternura. Ele também é
seco, injusto, agressivo. Ele contém amor e raiva no mesmo gesto. Ele permite
que alguém sinta falta e, ao mesmo tempo, queira cobrar explicações de quem não
pode mais responder.
Não
era só saudade.
Era amor ferido.
Era fúria sem endereço.
Era continuar vivendo com alguém ausente ocupando todos os espaços.
Cristal
seguia. Não por coragem, nem por promessa alguma. Seguia porque o corpo
continuava indo, mesmo quando tudo dentro dela queria ficar. Seguia
atravessada, desalinhada, com a raiva misturada ao amor, sem tentar resolver
essa contradição. Ele não estava mais ali, mas também não tinha ido embora.
Ocupava o espaço invisível das coisas definitivas. E viver, para ela, passou a
ser isso: carregar alguém ausente sem fazer as pazes com a ausência.
Silvia
Marchiori Buss
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