A Santa de Todas as Marias
Santa Maria era uma cidade de tamanho médio, dessas que não se explicam por números. Não era pequena o bastante para caber inteira na memória, nem grande o suficiente para permitir o anonimato completo. Havia ruas largas, esquinas repetidas, praças onde o tempo se sentava para descansar. A cidade aprendia a existir no intervalo entre o que se dizia e o que ficava calado.
Entre tantas mulheres
chamadas Maria, havia uma que não se confundia. Não por qualquer traço
extraordinário, mas por uma presença difícil de definir. Quando ela chegava, as
conversas se ajustavam. Não cessavam — apenas encontravam outro ritmo. Era como
se o ar reconhecesse alguém que sabia permanecer.
Ninguém soube dizer
quando começou. Talvez numa tarde comum, talvez numa ausência grande demais.
Alguém disse o nome dela com cuidado excessivo. Outro repetiu. Logo, Maria
deixou de ser apenas uma entre tantas.
Chamaram-na, sem
solenidade, de Santa de Todas as Marias.
O título não veio de fé
declarada, nem de devoção pública. Veio do cotidiano. Da porta entreaberta, do
copo d’água oferecido sem pergunta, do gesto que não exigia retorno. Maria não
fazia promessas. Não anunciava caminhos. Apenas estava.
E estar, em Santa Maria,
às vezes era tudo.
Ela ficava quando a
notícia chegava atravessada. Ficava quando o dia se quebrava no meio. Ficava
quando ninguém sabia o que dizer. Havia em Maria uma forma silenciosa de
sustentar o peso alheio sem parecer sacrifício.
As mulheres da cidade
começaram a se reconhecer nela. Não como espelho, mas como margem. Um lugar
onde era possível encostar a própria fragilidade sem explicá-la. Não era
preciso ir até Maria. Bastava saber que ela existia.
A cidade, sem perceber,
foi aprendendo. As palavras ficaram menos duras. As pausas, mais longas. Santa
Maria seguiu com suas falhas, seus muros descascados, seus dias comuns — mas
algo nela passou a respirar diferente.
Maria continuava
caminhando pelas mesmas ruas. Comprava pão, esperava o sinal abrir, desviava
das poças depois da chuva. Não sabia do nome que lhe davam. Não sabia do peso
simbólico que carregava sem intenção.
Com o tempo, ninguém
mais tentou explicar.
Não era preciso.
Santa Maria seguia sendo
uma cidade de tamanho médio, com ruas gastas e silêncios antigos.
E Maria seguia caminhando por ela, sem saber do nome que lhe deram.
Não pediu altar.
Não pediu palavra grande.
Bastava ser.
E, sendo, era.
Santa de todas as
Marias.
Silvia Marchiori Buss
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