Quando o Encantamento Passa

 Ela percebeu numa terça-feira comum, dessas que não pedem atenção. A água do café ferveu demais, o rádio falava sozinho na cozinha, e a manhã seguia seu curso sem tropeços. Ainda assim, havia algo fora do lugar. Não era tristeza. Tampouco decepção. Era uma ausência sem nome, discreta, quase educada.

O encantamento não foi embora de uma vez. Ele se esfarelou. Primeiro, deixou de habitar os detalhes — o jeito como ele encostava a mão no batente da porta, a pausa antes de responder, o riso curto que vinha do fundo do peito. Depois, começou a falhar nos rituais: o beijo automático, a pergunta repetida, a escuta pela metade.

Ela tentou não notar. Fingiu que aquilo era cansaço, fase, excesso de dias iguais. Continuou dobrando roupas, respondendo mensagens, atravessando ruas. Mas o corpo, esse, não mente por muito tempo. O corpo percebe quando algo que sustentava começa a faltar.

Houve uma noite em que se sentaram lado a lado no sofá, e o silêncio entre eles não pediu explicação. Não havia conflito, nem palavra atravessada. Apenas aquele espaço estranho, largo demais para ser ignorado. Ela pensou em dizer alguma coisa, qualquer coisa. Não disse. Ele também não.

O encantamento, quando passa, não faz barulho. Não quebra portas, não levanta a voz. Ele apenas deixa de voltar. E o que fica é essa convivência com o que já foi inteiro. Uma espécie de memória viva, ocupando o mesmo lugar, mas sem pulsar.

Ela aprendeu, então, que nem tudo termina em ruína. Algumas coisas acabam em permanência vazia. Continuam existindo, mas sem promessa. Como uma casa bem cuidada onde ninguém mais mora.

Na manhã seguinte, o café voltou a ferver demais. O rádio seguiu falando sozinho. E ela entendeu — sem drama, sem conclusão — que o encantamento não se perde por descuido. Ele se vai quando já cumpriu tudo o que podia. E isso, de algum modo, também é uma forma de verdade.

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Silvia Marchiori Buss

 

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