Pequenas Cenas Que Ninguém Narra
Ela está sentada à mesa do fundo de um café estreito, quase colada à janela. O vidro é antigo, um pouco opaco, e deixa ver apenas um trecho da calçada — exatamente onde as pessoas diminuem o passo, como se algo pudesse acontecer ali.
Do lado de fora, um
casal para diante do vidro. Não são jovens. Também não parecem velhos. Ele
mantém uma das mãos no bolso do casaco; ela apoia as duas no braço dele, como
quem se equilibra. Não falam. O abraço vem sem pressa parecendo ser mais por
hábito do que outra coisa. Um ajuste conhecido. Dura pouco. Eles se soltam e
seguem, cada um para um lado, sem olhar para trás.
Mais adiante, ainda na
calçada, outro casal. Esse discute. As palavras não atravessam o vidro, mas os
gestos chegam inteiros. Ela fala com as mãos. Ele responde com o corpo fechado.
Em algum ponto, ela diz algo curto. Ele não reage. Olha para o chão, atravessa
a rua sem se despedir. Ela fica parada por um instante longo demais. Para quem
passa, é só uma cena comum. Para eles, talvez seja o dia inteiro.
Ela afasta o olhar da
janela.
Dentro do café, na mesa
ao lado da sua, um homem mostra no celular a foto de um cachorro. Inclina a
tela, aponta detalhes com o dedo. A mulher à frente sorri pouco, mexe o café já
frio. Quando ele se levanta para pagar, ela permanece sentada e continua
olhando a imagem por alguns segundos antes de devolver o telefone.
Mais perto da vitrine,
duas xícaras vazias. Um guardanapo dobrado com cuidado excessivo. Uma pessoa se
levanta antes da outra. A cadeira fica ali, vazia demais para ser ignorada.
Uma moça estuda sozinha.
Cadernos abertos, anotações espalhadas. Antes de escrever, bate a caneta de
leve contra a própria mão — uma, duas vezes. Respira. Escreve. Para. Apaga.
Recomeça. O café não é tocado.
Num canto mais discreto,
um jovem chora em silêncio, fones nos ouvidos. Não enxuga o rosto. Deixa que as
lágrimas escorram enquanto escuta alguma coisa no celular. Ela observa sem
saber. Pode não ser tristeza. Pode ser emoção demais. Um anúncio. Um reencontro.
Uma música. Algo que muda tudo, ou quase.
Ela volta o olhar para a
rua.
Um casal atravessa de
mãos dadas, mas sem o mesmo ritmo. Um passo sempre se adianta. Não parece um
problema.
Uma mulher caminha
falando ao telefone. Diz “tchau” com uma voz que não combina com o rosto.
Guarda o aparelho, ajeita a bolsa no ombro e segue.
Ela não anota nada. Não
organiza sentidos. Apenas observa.
Nada ali chama atenção.
Mas, para quem está dentro da cena, aquilo talvez seja tudo.
Silvia Marchiori Buss
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