" Raiva é o Medo Voltado Pra Trás"

Clara ouviu a frase por acaso, atravessada no meio da conversa, enquanto mexia o café já frio.

“Raiva é o medo voltado pra trás”.

Ela franziu a testa, como quem escuta uma música conhecida tocada em outro tom.

— Não concordo — disse. — Raiva é raiva. Medo é outra coisa.

Marcos não respondeu. Ficou olhando pela janela, acompanhando o movimento lento da rua, como se aquela frase não pedisse defesa. Clara detestava isso nele: a calma que não se justificava.

Ela era feita de decisões rápidas. Andava com passos firmes, falava sem rodeios, ocupava o espaço que lhe aparecia. Quem a conhecia pouco dizia que ela era forte. Quem ficava mais tempo percebia que a força vinha sempre acompanhada de um estalo curto, um incômodo pronto para virar palavra dura.

Clara se irritava com atrasos, com mudanças de planos, com respostas vagas. Com Marcos, a raiva aparecia fácil. Bastava um silêncio mais longo, um olhar distraído, uma frase dita fora do ritmo esperado. A raiva vinha antes de qualquer outra coisa, quente, certeira, quase confortável.

Ela dizia o que precisava ser dito. Às vezes alto demais. Às vezes com precisão que machucava. Depois ficava um resto no ar, algo que não se resolvia com razão.

À noite, quando a casa diminuía o volume, Clara sentia o corpo inquieto. Não era raiva. Era um desconforto miúdo, sem nome exato. Um pensamento que começava e não terminava. Medo de sobrar. Medo de depender. Medo de não ser escolhida quando não estivesse em movimento.

Ela não parava para olhar isso. Se levantava, organizava alguma coisa, inventava tarefas. O medo não gostava de ser encarado de frente.

Com Marcos, o caminho era conhecido.

— Tu sempre foges — ela disse uma vez, sem aviso, como quem ataca para não ser atingida primeiro.

Ele a olhou sem pressa.

— Não — respondeu. — Eu fico.

A frase não veio como defesa. Veio como presença. E isso a desorganizou.

Clara sentiu a resposta pronta subir — a ironia, o tom afiado, o argumento definitivo — mas algo travou no meio do caminho. Antes da raiva, havia outra coisa. Um aperto antigo, quase infantil, pedindo garantia.

Ela respirou curto.

— Eu tenho medo — disse, sem saber exatamente de quê.

Marcos não respondeu. Sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância mínima. Não tocou. A proximidade era convite e risco. Clara ficou rígida por alguns segundos, esperando o abandono, o incômodo, a saída.

Nada aconteceu.

O silêncio não virou ausência. O tempo passou.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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