A Mentira Travestida de Verdade

 Ela não começou mentindo. Começou escolhendo o que dizer quando alguém perguntava. Havia perguntas que vinham por educação, outras por curiosidade, poucas por real interesse. Ela aprendeu a reconhecer a diferença pelo tom, pelo tempo que o outro sustentava o olhar.

Na primeira vez, foi numa cozinha alheia. Café recém passado, a colher batendo na xícara, alguém encostado no balcão esperando resposta.
— E você, como está?
Ela respirou fundo, não por emoção, mas para ganhar segundos. Disse “estou bem” porque era curto, porque cabia naquele espaço entre um gole e outro. Ninguém pediu detalhes. O assunto mudou. Funcionou.

Depois vieram outras ocasiões. Um almoço de domingo, cadeiras arrastando, pratos sendo servidos. Alguém perguntou sobre decisões antigas, sobre escolhas que supostamente tinham sido feitas. Ela disse que sim, que tinha sido assim mesmo. Que tinha optado. Que achava melhor daquele jeito. Enquanto falava, partia a carne em pedaços pequenos demais, como se isso ajudasse a organizar o resto.

No início, ainda tentava corrigir mentalmente o que dizia. Sabia onde tinha alterado a ordem dos fatos, onde tinha suavizado a queda. Com o tempo, parou de conferir. A versão aceitável ganhou ritmo próprio. Saía com naturalidade, sem esforço visível.

No trabalho, isso era ainda mais claro. Conversas rápidas no corredor, reuniões que começavam sempre atrasadas, alguém comentando algo pessoal como quem puxa assunto para preencher silêncio. Ela oferecia respostas limpas, sem rebarbas. Não mencionava noites mal dormidas, nem aquela sensação persistente de estar sempre um passo atrás de si mesma. Dizia que estava tudo sob controle. As pessoas assentiam, satisfeitas.

A verdade ficava fora dessas cenas. Não aparecia em palavras, mas em coisas menores. No modo como ela evitava certas ruas. No gesto automático de silenciar o rádio quando começava uma música específica. No corpo que enrijecia ao ouvir uma pergunta simples demais.

Havia também os momentos solitários. À noite, sentada na beira da cama, os sapatos largados no chão sem cuidado. O celular na mão, mensagens não respondidas. Ali, ninguém exigia coerência. Mesmo assim, ela não contava. Não formulava. Pensava em começar, mas algo sempre travava no meio. Como se nomear fosse tornar definitivo.

Uma vez, quase disse. Estava diante de alguém que parecia disposto a ouvir. A conversa desacelerou, o barulho ao redor diminuiu. Ela começou diferente daquela versão ensaiada. Usou palavras menos polidas. Chegou perto. Mas interrompeu no ponto em que sentiu o peso real daquilo que carregava. Mudou o rumo, comentou outra coisa. O outro não insistiu. Ela agradeceu em silêncio.

Com o tempo, percebeu que já não distinguia com clareza onde começava a adaptação e onde terminava o fato. Não porque tivesse esquecido, mas porque a repetição cria sulcos. A mentira não era invenção deliberada — era um caminho gasto, fácil de percorrer quando o dia já vinha pesado.

A mentira ficou. Não como escolha consciente, mas como hábito. Cabia melhor nos dias comuns, não exigia coragem extra nem explicações longas. A verdade, quando aparecia, vinha sem palavras — num cansaço súbito, num gesto interrompido, numa vontade de ir embora sem saber de onde. E assim ela seguiu: não exatamente mentindo, não exatamente dizendo. Apenas vivendo no espaço estreito entre o que aconteceu e o que era possível contar.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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