Amor do Avesso

 Eles se amaram como quem aprende a andar de costas.

Não por medo do caminho, mas por respeito ao chão. Cada passo era um cálculo silencioso, uma tentativa de não pisar onde o outro ainda doía. Não avançavam — permaneciam. E isso, para eles, já era movimento suficiente.

Ela chegou primeiro ao silêncio. Não porque quisesse, mas porque entendeu cedo que algumas palavras só atrapalham. Ele demorou mais. Tentou preencher os vazios com frases, com explicações, com uma espécie de coragem improvisada. Até perceber que o silêncio dela não era ausência — era espaço. Quando entendeu, trouxe uma cadeira e ficou.

O amor deles não se anunciava. Não pedia palco, não buscava testemunhas. Existia nos detalhes quase invisíveis: no copo esquecido sobre a mesa, sempre no mesmo lugar; no casaco pendurado por hábito, mesmo nos dias quentes; no rádio ligado baixo demais para ser música, alto o suficiente para não ser solidão.

Amor do avesso é quando o abraço acontece por dentro.
Quando a mão não toca, mas reconhece.
Quando o cuidado se antecipa ao pedido.

Eles não se chamavam de saudade, mas sabiam exatamente onde doía quando o outro não estava. Ela deixava a luz acesa na cozinha sem perceber. Ele voltava para casa mais cedo, mesmo sem pressa, só para não chegar tarde demais. Não era vigilância — era escuta.

Houve dias em que ela acordou com a ausência sentada na beira da cama. Não como falta, mas como presença silenciosa. Ele sentia quando isso acontecia. Não perguntava. Preparava o café mais forte, abria a janela devagar, respeitava o tempo dela como quem respeita uma ferida que ainda não cicatrizou.

Eles aprenderam a não prometer. Promessas criam expectativas, e expectativas cobram. Preferiam os gestos pequenos: o prato servido antes de esfriar, o cobertor ajustado sem acordar, a frase interrompida porque o outro já tinha entendido. Amor do avesso é isso: não precisar terminar a frase.

Não se deviam nada — por isso se davam tudo.
Ele a escutava com os olhos, atento às pausas, às palavras que não vinham. Ela respondia com silêncios precisos, desses que não pedem tradução nem explicação. Entre os dois, o tempo não passava: respirava. Às vezes pesado, às vezes leve, mas sempre presente.

Houve desencontros. Sempre há. Momentos em que ela quis ir e ele ficou. Momentos em que ele quis ficar e ela precisou ir. Mas nunca houve abandono. Apenas a certeza silenciosa de que o outro continuaria ali — mesmo quando não estivesse.

Não houve um grande final. Nenhuma despedida definitiva. O amor deles não funcionava assim. Era continuidade. Como uma linha que não se vê, mas sustenta o tecido. Como um nó escondido que mantém tudo no lugar.

Se alguém perguntasse, talvez dissessem que se amaram errado. Que faltaram declarações, gestos grandiosos, certezas absolutas. Mas errar, ali, era só outra forma de acertar sem barulho.

 Amar do avesso é costurar o mundo por dentro,
é escolher ficar mesmo quando não se pede,
é seguir sem aplauso,
sabendo que o amor, quando é verdadeiro, não precisa se mostrar.

 

Silvia Marchiori Buss

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora