Às Vezes Parece Que é Assim
Tem dias em que a gente anda.
Anda mesmo.
Coloca o corpo para frente, o pé um na frente do outro, cumpre horários,
atravessa ruas, resolve coisas pequenas e grandes. Anda.
E
ainda assim, no fim do dia, a sensação é de que voltou alguns passos. Como se o
chão tivesse se movido por conta própria, como aquelas esteiras de aeroporto
que empurram a gente para trás quando estão desligadas.
Ninguém
percebe.
Por fora, tudo parece normal.
A pessoa chega, responde, sorri quando precisa, assina papéis, lava a louça,
atravessa a cidade. Mas por dentro existe um cansaço estranho, que não é
físico. É um cansaço de direção.
Não
é falta de esforço.
Também não é preguiça.
É essa impressão incômoda de que, apesar do movimento, algo essencial não
avança.
Talvez
seja porque algumas coisas não obedecem ao ritmo do corpo.
O tempo anda mais rápido do que a coragem.
A memória anda em círculos.
E o desejo, às vezes, estaciona.
Há
momentos em que a gente tenta ser prático. Diz para si mesmo que é só uma fase.
Outras vezes tenta ser duro: “segue”, “não pensa”, “não sente tanto”. Funciona
por algumas horas. Depois não.
O
mundo continua exigindo passo firme. Não pergunta se o chão está escorregadio
por dentro. Não quer saber se o coração tropeçou. O mundo cobra presença,
decisão, clareza.
E
a gente vai.
Mesmo sem clareza.
O
problema não é andar para trás. O problema é perceber isso quando ninguém
ensinou como lidar com o retrocesso. Porque ninguém gosta de admitir que perdeu
terreno. Parece fracasso. Parece incompetência. Parece atraso.
Mas
talvez não seja.
Talvez
seja só um tipo diferente de travessia.
Uma em que o corpo avança, mas a alma ainda está recolhendo coisas pelo
caminho.
Uma em que não dá para levar tudo junto de uma vez.
Há
perdas que não se resolvem andando mais rápido.
Há perguntas que não se calam com agenda cheia.
Há dias em que avançar demais seria apenas fugir.
Então
a pessoa anda.
E, silenciosamente, aceita que hoje não chegou onde queria.
Aceita que há passos invisíveis sendo dados — para dentro, para trás, para o
lado — e que isso também é movimento, ainda que não renda aplauso.
Não
há lição nisso.
Não há final redondo.
A vida não fecha com música bonita.
O
que existe é esse corpo que continua indo, mesmo sem mapa, mesmo desconfiado do
próprio avanço. Existe essa tentativa honesta de não desistir, mesmo quando o
progresso não se apresenta de forma clara.
Talvez
seja assim mesmo: continuar andando, sabendo que nem todo passo é vitória, mas
que parar, esse sim, teria um peso maior.
A
gente anda.
E, às vezes, o chão anda junto.
Nem sempre na mesma direção, mas amanhã, se der, a gente anda de novo.
Silvia
Marchiori Buss
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