Entre o Gesto e a Queda

Aprendi tarde que o gesto vem antes da queda. Sempre vem. É mínimo, quase indecifrável. Um copo que fica na pia porque não vale o esforço. Um sapato fora do lugar. Um pensamento interrompido no meio, como se não merecesse conclusão. A queda não anuncia chegada — ela se prepara em silêncio.

Naquele dia, eu ainda funcionava. Saí de casa com o corpo vestido de rotina. Cumprimentei o porteiro com a cabeça, como quem confirma a própria existência. Ele respondeu igual. O acordo estava mantido.

O gesto foi atravessar a rua fora da faixa. Não por pressa. Por cansaço. Um cansaço sem drama, desses que não pedem socorro. Nenhum carro freou. Ninguém gritou. Mesmo assim, algo se deslocou dentro de mim — como quando uma peça solta não derruba o móvel, apenas o condena.

Eu trabalhava com palavras. Ainda trabalho. Mas naquele período elas tinham perdido densidade. Estavam corretas, alinhadas, disponíveis. Não sustentavam nada. Escorriam antes de tocar. Eu escrevia como quem empilha superfícies lisas: tudo caía.

Você dizia que eu estava exagerando. Não com desdém — com cansaço também. Dizia que havia dias assim. Que passava. Nunca me pediu para reagir, o que eu agradecia. Mas havia algo naquela frase — isso passa — que me empurrava para fora do presente. Eu não queria passagem. Queria ficar. Mesmo no que doía.

O gesto seguinte foi parar de te contar. Não tudo. Só o que importava. Continuei falando do trivial — contas, clima, horários. O centro ficou comigo, comprimido, sem ar. Você percebeu tarde. Ou percebeu cedo demais e decidiu não tocar. Não sei.

A queda não veio como evento. Não houve cena. Foi uma soma. Dias mal atravessados. Noites que não descansavam. Um corpo que começava a sentar torto na cadeira, como se desaprendesse o próprio peso.

Houve um momento exato em que entendi que o chão estava instável. Eu escovava os dentes quando vi meu rosto no espelho e não reconheci a expressão. Não era tristeza. Era retirada. Como se alguém tivesse levado o conteúdo e deixado apenas a forma.

Cuspi a espuma. Apoiei as mãos na pia. Pensei em você. Pensei em mim antes de você. Nenhum dos dois parecia disponível.

Depois disso, passei a viver nesse intervalo estreito — entre o gesto e a queda. Um lugar onde nada se resolve e tudo ameaça. Onde cada escolha pesa demais e cada adiamento pesa ainda mais. Onde o corpo continua, mas a intenção falha.

Às vezes imagino que um gesto diferente teria mudado algo: atravessar na faixa, lavar o copo, dizer tudo. Mas esse pensamento pertence a quem ainda acredita em versões alternativas do corpo. O corpo não revisa. Ele registra.

Passei a observar detalhes inúteis: uma rachadura no chão, um papel esquecido no banco, a sombra torta de um poste. Nada ali esperava ser salvo. Nada pedia sentido. Permaneciam.

Eu sigo.

Ainda não cheguei ao ponto em que o chão decide.

 

Silvia Marchiori Buss

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Energia na Parede

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora