O Caos No Tempo

 Ela percebe no meio de um gesto errado.

Não é distração. É deslocamento.

O corpo está num ponto. O pensamento, em outro. Eu tento juntar. Não encaixa. Nunca encaixa de primeira. O tempo tem esse vício de espalhar as partes.

Ela se levanta sem decisão. Eu sigo porque o corpo já foi. O dia começa antes de qualquer acordo.

Nada parece grave. Isso é o pior.
As coisas continuam funcionando: água, luz, rua, gente. O defeito não aparece por fora. É um erro interno, fino, persistente. Como se o tempo tivesse sido montado com uma peça de outro modelo.

Eu penso em ontem. Ela sente amanhã. Ao mesmo tempo.
O presente fica curto demais para sustentar os dois.

O tempo não avança. Ele se empilha.
Camadas mal distribuídas, pressionando por dentro. Algumas lembranças não se movem. Outras passam rápido demais e deixam apenas um rastro sujo. Não há lógica. Nunca houve.

Ela tenta organizar. Eu já sei que não adianta.
Antes, depois, agora — palavras frágeis para uma coisa que não respeita sequência.

Há retornos. Não chegam inteiros.
Chegam como falha: um tom de voz sem frase, um gesto sem corpo, um peso sem nome. O corpo entende. A linguagem atrasa.

Eu atravesso o dia com cuidado excessivo.
Ela chama isso de prudência. Eu sei que é medo de desorganizar ainda mais o pouco que se mantém em pé.

O tempo não cobra atenção. Cobra presença.
E mesmo assim falhamos.

Nada se resolve. Nada se conclui.
O tempo não trabalha com fechamento. Ele prefere desgaste.

O caos não estoura.
Ele fica.

Funciona baixo.
Como coisa antiga que ninguém mais conserta porque ainda dá para usar.

Ela aprende os desvios. Eu tropeço neles.
O dia passa sem passar direito.

Algumas horas ficam presas. Outras se perdem.
Ninguém sente falta do que não chegou a acontecer.

Ela continua.
Eu também.

Silvia Marchiori Buss

 

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