Ainda Era Ontem

 Ainda era ontem quando Elisa percebeu que o tempo não tinha avançado como prometera. Não houve alarme, nem pressentimento. Foi um detalhe mínimo: o café esfriou na xícara antes de ela lembrar de beber. O vapor subiu, dissipou-se, e o gosto amargo ficou intacto — como se tivesse sido preparado no dia anterior.

O apartamento permanecia igual. As cadeiras, a mesa, o corredor estreito que levava ao quarto. Nada fora movido. Mesmo assim, havia algo fora do lugar. Uma dobra no ar, talvez. Um atraso.

Ela se levantou e abriu a janela. A rua fazia seu ruído habitual, carros passando, alguém discutindo ao telefone, um cachorro latindo em algum ponto invisível. Tudo seguia. Só ela parecia suspensa.

Miguel costumava dizer que o ontem é um lugar confortável demais para se morar. Dizia com ironia, nunca com conselho. Ele tinha esse jeito de falar coisas sérias como quem comenta o clima. Não gostava de conclusões. Elisa gostava disso nele. Gostava do modo como ele não fechava portas.

Miguel não estava mais ali. Não havia morte anunciada, nem tragédia que pudesse ser contada em poucas frases. Ele simplesmente partira de um modo que não cabia explicação rápida. Uma ausência sem espetáculo. Um silêncio que não pedia aplausos nem lágrimas públicas.

Ela tentou seguir o dia. Vestiu-se, saiu. No elevador, encontrou Dona Tereza, do quinto andar, que comentou sobre o calor fora de época. Elisa concordou com a cabeça. O calor parecia antigo. Como se viesse de outra estação.

Na rua, caminhou sem destino claro. As vitrines refletiam um rosto que ela reconhecia, mas não completamente. Havia algo de ontem naquele reflexo — uma versão que ainda esperava alguém atravessar a calçada oposta e acenar.

No café da esquina, sentou-se na mesa de sempre. O garçom não perguntou o pedido. Trouxe o de costume. Elisa achou isso excessivo. O hábito também pode ser uma forma de prisão, pensou. Ou de sobrevivência. Não decidiu.

Foi ali que viu Helena.

Helena segurava um livro fechado contra o peito, como se tivesse acabado de desistir de lê-lo. Os olhos vagavam sem foco definido. Havia uma familiaridade desconfortável naquele modo de estar. Elisa reconheceu.

— Posso? — Helena perguntou, apontando para a cadeira vazia.

Elisa assentiu. Não trocarem nomes de imediato pareceu correto. Algumas coisas não precisam ser nomeadas.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, dividindo a mesa e uma espécie de entendimento mudo. O café esfriava com a mesma lentidão cruel.

— Ainda era ontem — disse Helena, de repente, sem olhar para Elisa.

A frase caiu entre elas como um objeto esquecido.

— Também pra você? — Elisa respondeu, mais baixo do que pretendia.

Helena sorriu de lado. Um sorriso que não se sustenta por muito tempo.

— Parece que sim.

Não falaram mais sobre isso. Não houve troca de histórias completas. Apenas fragmentos. Um nome mencionado e abandonado no meio da frase. Uma rua lembrada sem localização. Um gesto repetido com as mãos, como quem ainda espera algo voltar a encaixar.

Quando se levantaram para ir embora, não combinaram novo encontro. Não trocaram telefone. Não houve promessa. A despedida foi curta, quase brusca. Como se alongá-la fosse perigoso.

Elisa voltou para casa com a sensação de ter cruzado uma fronteira invisível. O apartamento a recebeu do mesmo jeito que sempre. Nada mudara. Tudo mudara.

Sentou-se no sofá. Olhou para o espaço onde Miguel costumava largar o casaco. Não havia casaco. Havia a marca da ausência — algo que não se vê, mas se contorna.

Ainda era ontem. Não como lamento, nem como desejo. Era constatação. Um tempo que insistia em permanecer aberto, sem fechar ciclo algum.

Elisa apagou a luz da sala. No escuro, o ontem não parecia tão distante do hoje. Talvez nunca tivesse sido. Talvez fosse apenas assim que o tempo se comporta quando ninguém está olhando.

Ela não tentou resolver isso.

Ficou ali.

Esperando nada específico.

Ou tudo.

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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