Essa Alma Que Me Habita
Ela não veio comigo ao nascer. Chegou depois, quando eu já sabia atravessar dias sem perguntar demais. Durante muito tempo, vivi correta. Funcionava. Horários, compromissos, respostas. O corpo cumpria, a cabeça resolvia.
Nada faltava.
Nada sobrava.
A alma apareceu quando
fui desamparada de alguma coisa que nunca aprendi a nomear. Não foi anúncio nem
dor clara. Foi um deslocamento pequeno, quase invisível. Um fim de tarde comum
demais, a rua sem importância, o corpo cansado antes da hora. Fiquei parada um
segundo a mais do que o necessário, como quem perdeu o lugar na própria fila.
Não entendi.
Apenas senti.
Não como descoberta —
como sobra. Algo que sempre esteve ali e só se fez notar quando deixei de caber
inteira no que vinha sendo.
Desde então, ela me
habita.
Mas à noite, quando o
corpo cede, ela volta.
Senta na beira da cama
sem ruído, como quem confere se ainda estou ali. Não fala. Nunca fala. Apenas
permanece. E isso basta para desfazer qualquer certeza acumulada durante o dia.
Ela acorda antes de mim.
Enquanto amarro os sapatos, sinto que observa. Não julga — isso importa. Apenas
registra. Tem uma memória que não coincide com a minha. Guarda cheiros que
descartei, palavras ditas sem intenção, gestos mínimos que sustentaram dias
inteiros sem ninguém perceber.
Essa alma não quer ser
curada. Não aceita tradução. Não cabe em frases bonitas nem em discursos de
superação. Existe porque fui alijada — e porque continuei mesmo assim. É o que
ficou quando algo fundamental não veio.
Não a escolhi.
Não posso expulsá-la.
Aprendi a suportar.
Quando o mundo pede
dureza, ela falha.
Quando exige pressa, ela atrasa.
Quando dizem “já passou”, ela permanece onde ninguém olha.
Seguimos.
Eu atravesso os dias.
Ela insiste.
Sem acordo.
Sem promessa.
Essa alma que me habita.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário