A Vida Em Curva
Ela voltou ao mesmo lugar sem perceber. Não reconheceu de imediato, mas o corpo reconheceu antes. A calçada, o tempo do semáforo, o jeito de atravessar sem olhar. A conversa interrompida sempre no mesmo ponto. Não era repetição. Era retorno. A vida não seguia em linha reta; descrevia curvas, como se quisesse testar se agora ela pisaria diferente.
Por muito tempo, chamou
isso de destino. Era mais fácil. Destino não cobra escolha, não pede revisão.
Mas naquela tarde comum — sem aviso, sem metáfora — algo saiu do eixo. Um
cansaço que não pedia descanso. Pedia outra coisa. Ainda sem nome.
Os erros não vieram como
culpa. Vieram como fatos.
Ter ficado quando já era ausência.
Ter falado demais para quem não escutava.
Ter se calado para não perder.
Ter confundido cuidado com permanência.
Ter chamado de amizade o que era apenas costume.
Houve decisões feitas
por medo. Outras, por apego. Algumas por esperança demais. Ela acreditou que
insistir era virtude. Que suportar era sinal de amor. Que compreender
significava aceitar tudo. Não significava.
Lembrou de quantas vezes
se adaptou até quase desaparecer. Ajustou o tom, o gesto, a expectativa. Riu
quando algo doía. Ficou quando queria ir. Foi quando precisava ser ausência.
Não errou por maldade.
Errou por tentativa. Por acreditar que, ficando mais um pouco, algo finalmente
se alinharia. Não se alinhou.
Percebeu então que
precisava voltar exatamente ali. Não para se punir. Para olhar sem desculpa.
Para admitir, ainda que em silêncio, que aquilo já não era escolha — era
adiamento.
Dizer isso não trouxe
alívio. Trouxe peso. Porque o que se solta ainda puxa. Porque o corpo prefere o
conhecido, mesmo quando machuca. Porque mudar não é elegante: é desajeitado,
cansativo, solitário.
Ficar teria sido mais
simples. Ficar era continuar chamando de paciência o que já era medo. Era
repetir a mesma cena esperando um desfecho novo.
A espiral não a trouxe
de volta para castigá-la. Trouxe para perguntar, sem urgência: e agora?
O erro era o mesmo. Ela,
não. Em cada volta, algo nela endurecia — não por frieza, mas por lucidez.
Ainda errava. Ainda hesitava. Mas já não fingia. Já não se abandonava inteira.
Não houve gesto
simbólico.
Não houve frase de encerramento.
Apenas um passo fora do padrão.
Depois outro.
E outro, ainda inseguro.
A espiral não se fechou.
Apenas deixou de apertar.
Silvia Marchiori Buss
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