O Amor Que Não Morreu, Criou Asas
No mercado, ele empurrou o carrinho pelos corredores errados. Só percebeu quando parou diante da prateleira que ela costumava escolher. Ficou ali tempo demais, fingindo comparar rótulos.
Pegou qualquer coisa.
Colocou no carrinho. Andou mais alguns passos e parou de novo. Aquilo não fazia
sentido. Voltou e deixou o produto fora do lugar, como se a desordem fosse um
gesto permitido.
A lista era curta.
Sempre era. Ele ainda esquecia as mesmas coisas. Antes, isso virava uma
observação distraída, um comentário feito sem importância. Agora, não virava
nada.
Em casa, guardou as
compras em silêncio. O pão ficou aberto. A fruta amadureceu rápido demais. O
leite quase escorreu da mão. Não era pressa. Era outra coisa. Um excesso que
não sabia onde pousar.
O casaco dela continuava
no armário. Não ocupava espaço demais, mas também não cabia em outro lugar. Ele
não mexia. Não por apego — por falta de motivo suficiente para tirá-lo dali.
À noite, sentou-se no
sofá e ligou a televisão sem som. As imagens passavam como se o mundo seguisse
funcionando para quem ainda precisava dele. Ele ficou ali, sem assistir, apenas
deixando o tempo passar pelo corpo.
Ela aparecia assim. Não
como lembrança inteira, dessas que se contam. Aparecia em detalhes que não se
organizavam: um cheiro no meio da rua, uma frase ouvida por acaso, uma música
que começava antes que ele pudesse impedir. Vinham rápido. Iam embora do mesmo
jeito.
Não era saudade como ele
imaginara que seria. Não era choro constante, nem colapso. Era essa coisa
estranha que se infiltra nos gestos. A mão que ainda se movia para o lado da
cama que já não respondia. A frase interrompida no meio, mesmo sem ninguém por
perto.
Houve um dia em que riu.
Um riso curto, quase um reflexo. Parou logo depois. Ficou atento ao próprio
corpo, como se tivesse cometido um erro. Nada aconteceu. Nenhuma culpa veio.
Nenhuma permissão foi dada.
Ele entendeu então que
ela não estava mais onde costumava estar.
Também não tinha ido
embora.
Era como se tivesse
aprendido outro modo de existir. Não ocupava a casa. Não exigia presença. Não
pesava. Às vezes, parecia passar por ele com leveza demais para ser lembrança.
Não era consolo. Não era
sinal. Era apenas essa sensação de que algo que foi inteiro agora se movia
solto, fora do alcance das mãos.
À noite, antes de apagar
a luz, pensou nela sem imagem definida. Pensou como quem reconhece um movimento
no ar. Algo que passa. Algo que não se segura.
Depois dormiu.
No dia seguinte, voltou
ao mercado.
Passou pela prateleira. Dessa
vez sentiu o espaço e seguiu.
Silvia Marchiori Buss
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