A Vida Em Obras

A vida não desaba de uma vez.

Ela cede aos poucos, como uma casa antiga que estala à noite. Primeiro uma trinca fina na parede. Depois o rangido da porta que sempre fechou bem. Até que um dia o teto parece mais baixo e a gente entende: algo mudou para sempre.

Não há sirenes quando a vida desmorona. O mundo segue funcionando. O ônibus passa no horário. O café esfria na xícara. As pessoas riem na fila do mercado. Só quem está dentro percebe o barulho surdo das coisas caindo por dentro.

Ela percebeu isso num dia comum. Não houve anúncio, nem tragédia nova. Apenas acordou e sentiu que não sabia mais como sustentar o dia inteiro. Levantar da cama foi uma negociação. Escovar os dentes, um esforço. Existir, um aprendizado recém iniciado.

No começo, tentou reconstruir tudo como era antes. Recolocou os móveis imaginários no mesmo lugar. Forçou os hábitos antigos. Repetiu frases conhecidas, como quem usa uma chave que já não encaixa. Não funcionou. A vida, quando cai, não aceita réplica.

Foi então que começou a fazer o que dava.

Um prato lavado.
Uma planta regada.
Uma mensagem respondida sem pressa.

Nada grandioso. Mas verdadeiro.

Descobriu que a reconstrução diária não tem projeto arquitetônico. Não há manual, nem linha reta. Há dias em que se coloca apenas um tijolo torto e isso Tá bom. Há outros em que a argamassa falta, e o melhor que se pode fazer é não derrubar o pouco que já ficou de pé.

Aprendeu que viver, depois do desabamento, é aceitar a poeira. O cansaço. O improviso. É sentar no chão da própria vida e dizer: hoje não dá para levantar paredes, mas dá para sustentar o corpo.

Com o tempo — esse operário silencioso — percebeu algo curioso: a nova construção tinha janelas maiores. Entrava mais luz. Não porque a vida tivesse ficado melhor, mas porque ela tinha aprendido a não tapar os vãos.

A vida continuava desabando, sim. Quase todo dia.
Mas agora ela sabia: o colapso não é o fim da obra.
É apenas o momento em que a gente escolhe, de novo, o que vale a pena reconstruir.

E assim, sem aplausos, sem garantias, a vida seguia.
Caindo um pouco.
Se refazendo um pouco.
Inteira o suficiente para mais um dia.

 

Silvia Marchiori Buss

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