Luz Que Não Amanhece
Ela não queria ser mariposa.
Não aquela que gira em círculos, encantada pela lâmpada acesa no meio da noite.
A luz aquece um pouco, engana os olhos, promete dia.
Ela ri. Ri enquanto gira, como quem tenta convencer o próprio corpo de que está
segura.
Mas cada volta cansa.
Cada aproximação dói mais do que parece.
As asas da mariposa não
queimam de uma vez.
Primeiro ressecam.
Depois perdem pó.
Depois perdem sentido.
Ela insiste, mesmo assim.
Porque a luz parece chamar.
Porque parar é admitir que foi enganada.
Ela gira até a exaustão.
E quando cai, não entende o erro.
Acreditava na claridade.
Acreditava que bastava se aproximar mais um pouco.
Via outras fazendo o
mesmo.
Chamavam aquilo de escolha.
Chamavam aquilo de amor à luz.
Chamavam aquilo de destino.
Ninguém falava da dor circular, do cansaço sem avanço, da ferida que não vira
cicatriz.
Mas a luz artificial não
nasce.
Ela acende.
E apaga.
Ela não queria viver
orbitando algo que não amanhece.
Queria o escuro
necessário.
Não como conforto, mas como travessia.
O tempo do casulo é apertado, úmido, solitário.
Ali o corpo dói de outro jeito.
Não de insistência — de ruptura.
Nada é bonito enquanto
acontece.
A borboleta não sabe que será borboleta.
Ela apenas suporta.
Desfaz músculos antigos, perde referências, desaprende o próprio peso.
É uma dor sem plateia.
Uma dor que não pede compreensão.
Queria ser borboleta por
isso.
Não pela beleza que vem depois,
mas pela coragem de atravessar o que ninguém aplaude.
Porque a beleza, quando chega, não precisa ser anunciada.
Ela existe.
E isso é suficiente.
Borboleta não gira em
torno da luz.
Ela cruza o dia.
Não permanece.
Não disputa atenção.
E quando abre as asas,
não pede aprovação.
Não precisa que vejam.
Não precisa que fiquem.
Voa porque é hora.
E segue.
Silvia Marchiori Buss
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