Quando a Árvore Perde o Fruto
Ela acorda porque o dia chama.
Não há drama nisso. Há hábito.
Veste
a roupa de trabalho com a mesma atenção de sempre, ajeita o cabelo diante do
espelho sem se deter no reflexo e sai. O mundo a reconhece pelo que faz — e
isso basta. Há tarefas esperando, horários, nomes, pequenas urgências que não
admitem demora.
Ela
cumpre.
No
trabalho, ninguém percebe nada de diferente. Ela responde, entrega, resolve. Às
vezes sorri. Às vezes se cala mais do que o necessário, mas silêncio também é
uma forma de competência. As mãos sabem o caminho. O corpo sabe onde ficar. A
mulher aprendeu a funcionar mesmo quando algo dentro não acompanha o ritmo.
Há
dias em que o peso vem sem aviso. Não pesa no corpo — pesa atrás dos olhos, no
intervalo entre uma tarefa e outra, naquele segundo em que não há nada para
fazer e tudo ameaça vir à tona. Ela não permite. Volta ao que precisa ser
feito. O trabalho é uma margem segura.
Na
volta para casa, passa pela árvore. Sempre passa. Em outros tempos, havia
frutos. Agora não. Ainda assim, ela não desvia. Observa o tronco, o desenho das
folhas, a terra ao redor. Não procura sinais. Não espera nada. Apenas
reconhece.
À
noite, organiza o que ficou do dia: uma roupa dobrada, um papel guardado, um
objeto fora do lugar. Pequenas correções. Pequenos gestos que impedem o caos de
avançar. Há uma ordem possível — e ela se agarra a isso com delicadeza, não com
desespero.
O
que mudou não tem nome.
Ou talvez tenha, mas ela não usa.
Sabe
apenas que há coisas que não retornam como antes. Que certas árvores seguem
vivas sem dar fruto. E que isso não as torna menos árvores. Apenas diferentes.
Ela
também segue.
No
dia seguinte, veste a roupa de trabalho outra vez. Sai. Cumpre. Volta. Passa
pela árvore.
E permanece.
Silvia
Marchiori Buss
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