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Mostrando postagens de setembro, 2026

O Vento Que Ficou

Ele chegou como uma rajada de vento. Eu estava em um lugar qualquer, entre pessoas que não conhecia direito, quando ele apareceu. Não houve anúncio, nem aquela cena bonita que às vezes inventamos depois que uma história dá certo. Ele simplesmente chegou. Falava com alguém, ria, gesticulava. De vez em quando olhava para o meu lado. Eu também olhei. Naquele dia, não aconteceu nada de extraordinário. Conversamos pouco. Eu nem lembro direito sobre o que. Lembro que, quando fui embora, pensei nele. No dia seguinte, ele apareceu de novo. Depois, encontramos um motivo para conversar. E outro. E outro. Aos poucos, os encontros foram ficando mais frequentes. Um café depois do trabalho. Um jantar que deveria ser rápido e terminava tarde. Uma caminhada sem destino. Um telefonema que começava com uma pergunta qualquer e, quando percebíamos, já tinha passado uma hora. Eu gostava de ouvi-lo falar. Ele tinha um jeito próprio de contar as coisas. Às vezes exagerava, às ve...

A Mágica das Mãos

Acho que uma das partes mais bonitas do corpo humano são as mãos. Talvez eu ache isso porque as minhas nunca foram bonitas. São grandes, finas, compridas. “Mãos de gringa”, dizia minha mãe. Nunca consegui ter aquelas unhas longas, bem-feitas, pintadas de vermelho, vinho, azul, essas cores que deixam as mãos tão femininas. As minhas unhas quase sempre foram cor de unha mesmo. E eu nunca tive muita paciência para transformá-las em outra coisa. Mas gosto de olhar para as mãos. Gosto de reparar nelas. Há alguma coisa de mágico naquele conjunto de dedos que se movimenta e, sem dizer uma palavra, consegue conversar. As mãos inventaram uma espécie de idioma que não precisa de tradução. Um aceno pode dizer “oi”, “tchau”, “vem”, “vai embora”. Um polegar levantado pode significar que está tudo bem. Dois dedos podem formar um V, e dependendo do lugar, da época e da intenção, aquilo pode dizer coisas diferentes. Uma mão sobre o peito pode agradecer. Duas mãos juntas podem pedir...

Rosa e Espinho

Dizem que uma roseira sabe mais da vida do que muita gente. Ela nasce pequena, quase sem chamar atenção. Depois cresce. Um galho. Dois. E começam a aparecer os espinhos. Ninguém conta quantos são. Eles simplesmente estão lá. Há épocas em que a roseira parece esquecer das flores. Só espinhos. Espinhos nos galhos, entre as folhas, escondidos onde a mão não espera. São os dias difíceis. Os dias de perda. De medo. De espera. De silêncio. Depois, sem aviso, aparece uma rosa. Uma. Depois outra. E mais uma. E a gente se aproxima devagar, porque já sabe dos espinhos. Mas a rosa está ali. Vermelha. Aberta. Inteira. Há anos em que a roseira fica carregada de flores. A vida também. Amores que chegam. Filhos que crescem. Netos. Amizades. Uma casa cheia. Uma viagem esperada. Uma notícia boa. Um café tomado sem pressa. Há outros anos em que quase não há rosas. E os espinhos parecem ocupar tudo. Mas eles não duram para sempre...

Quase Feliz

Há lugares em que a gente percebe que está em outro país antes mesmo de sair do aeroporto. Na Suíça, a organização chama atenção. Não sei dizer exatamente o que é. Talvez o silêncio. Talvez o jeito tranquilo de as pessoas se movimentarem, sem aquela pressa que parece fazer parte dos aeroportos. Pessoas elegantes passam com suas malas e mochilas, numa finesse que dá gosto de ver. Não vou comparar com outros lugares. Nem precisa. Depois vem o saguão de saída. E logo ali, o trem. Um trem de primeira. Silencioso, cheiroso, confortável. As pessoas falam baixo. Algumas olham o celular, outras conversam, outras simplesmente ficam olhando pela janela. E há nos rostos uma espécie de leveza. Pode ser impressão minha. Mas parecem felizes. O fim de semana está chegando. O sol também. Os últimos dias de um possível veranico se anunciam por aqui e, pelo jeito, vai dar praia. Eu gosto dessas pequenas promessas do tempo. Chego em casa e volto a respirar feliz. Quase feliz. ...

Nossas Sombras

Todos nós temos sombras. Algumas nasceram de coisas que vivemos. Outras, de coisas que não conseguimos viver. Há as que vieram de uma perda, de uma despedida, de uma palavra que ouvimos quando ainda éramos pequenos e nunca esquecemos. E há aquelas que nós mesmos criamos. Escondemos o medo porque precisamos parecer fortes. Escondemos a tristeza porque não queremos preocupar ninguém. Escondemos a raiva, o ciúme, a culpa, a saudade. Guardamos desejos que julgamos inadequados e sentimentos que não combinam com a pessoa que acreditamos precisar ser. Vamos escondendo. Uma coisa sobre a outra. Até que tudo isso começa a formar uma sombra. Ela não aparece de imediato. Vai crescendo nos cantos, silenciosamente. Às vezes se manifesta numa irritação que não entendemos, numa tristeza que chega sem convite, numa vontade inexplicável de fugir de um lugar, de uma pessoa ou até de nós mesmos. E seguimos escondendo. Porque é mais fácil dizer que estamos bem do que admitir que algu...

A Lista das Criaturas

Um dia aprendemos que a vida tem três movimentos. Nascer. Viver. Morrer. Aprendemos isso tão cedo que parece uma informação simples, dessas que cabem numa frase de livro escolar. Mas, quando crescemos, descobrimos que não é uma regra feita para nós. É para tudo que vive. Uma árvore nasce de uma semente, cresce, enfrenta o sol, a chuva, o frio, produz flores ou frutos e, um dia, deixa de existir. Um pássaro nasce, aprende a voar, procura alimento, encontra outro pássaro, constrói um ninho. Vive o tempo que lhe foi dado. Uma formiga passa a vida inteira carregando coisas que, para nós, parecem insignificantes. Um cachorro envelhece ao nosso lado. Uma flor abre pela manhã e pode não estar mais ali alguns dias depois. E nós também. A diferença é que recebemos uma coisa que nenhum de nós sabe muito bem o que fazer com ela: a capacidade de pensar sobre tudo isso. Pensamos sobre a vida enquanto estamos vivos. Pensamos sobre a morte enquanto ela ainda não chegou. Guardamo...

A Donzela e o Pirilampo

A donzela tinha medo do escuro. Não era um medo que confessasse. Durante o dia, parecia uma mulher como outra qualquer. Trabalhava, conversava, ria das histórias das amigas e caminhava pelo jardim quando havia sol. Mas bastava a noite chegar. Fechava as janelas, conferia a porta duas vezes e deixava uma vela acesa ao lado da cama. Foi numa dessas noites que viu o pirilampo. Uma pequena luz apareceu perto da janela, apagou-se e voltou a acender. A donzela ficou olhando. Abriu a janela. O pirilampo deu uma volta no quarto e saiu novamente para o jardim. Ela não o seguiu. Na noite seguinte, ele voltou. E na outra também. Até que, certa noite, a luz apareceu mais longe, perto do velho caramanchão. A donzela olhou para a porta. Depois para o jardim. Vestiu um casaco, calçou os sapatos e saiu. Parou na soleira. O coração batia depressa. O jardim era o mesmo de todos os dias. Só que, à noite, as árvores pareciam maiores, os caminhos mais compridos e qualq...

Vento Morno

Ela chegou à janela da pequena casa ainda cedo. Abriu-a e sentiu um vento morno tocar seu rosto. Era o vento da primavera, chegando devagar, já nas primeiras horas da manhã. Por um instante, fechou os olhos. Sentiu-se abraçada. Acarinhada. Quase feliz. O vento passou pelo seu corpo e ela, sem perceber, abraçou a si mesma. Fez o movimento que tantas vezes fizera quando era envolvida pelos braços dele. Não era um abraço apertado. Era daqueles que protegiam. Quase paternal. Um abraço que dizia, sem palavras, que estava tudo bem. E ela se arrepiou. Desde que se conheceram, Paulo tinha esse jeito de cuidar dela. Um cuidado que não fazia barulho. Estava nas pequenas coisas, no modo de olhar, de perguntar se ela tinha comido, se estava com frio, se precisava de alguma coisa. Ela costumava dividir a própria vida em duas partes. AP e DP. Antes de Paulo. Depois de Paulo. Paulo tinha sido uma linha divisória. Antes dele, havia o pai. O homem do colo, do dengo, da proteção. O...

Muito Além de Rótulos

Detesto rótulos. Talvez porque nunca tenha conseguido caber direito em nenhum deles. Separado. Solteiro. Casado. Viúvo. Divorciado. Gordo. Magro. Bonito. Feio. Rico. Pobre. Bem-sucedido. Fracassado. Forte. Fraco. Alegre. Triste. Como se uma palavra pudesse dar conta de uma pessoa inteira. Basta alguém dizer que está separado e imediatamente aparecem as perguntas que ninguém fez: há quanto tempo? Por quê? Foi traição? Quem deixou quem? Está sozinho? Já encontrou outra pessoa? Se diz que é solteiro, logo vem a curiosidade sobre a idade, os namoros, a falta de compromisso. Casado parece ser um estado civil, mas quase nunca é apenas isso. Há casamentos felizes, outros suportados, outros que existem apenas no papel e outros que continuam vivos mesmo depois de uma separação. E há quem tenha perdido o marido ou a mulher e descubra que existe ainda outro rótulo para carregar: viúvo. Uma palavra curta para uma ausência enorme. Também não entendo os rótulos que damo...

Entre Lençóis

A noite havia chegado devagar, como se também soubesse que algumas coisas não deveriam ser apressadas. No quarto, apenas a luz amarelada do abajur atravessava a penumbra. A janela permanecia entreaberta, deixando entrar o perfume úmido da noite e um vento leve que fazia a cortina se mover. Ela estava deitada, coberta até a cintura pelo lençol branco. Não dormia. Ele entrou sem fazer barulho. Por alguns segundos, ficaram apenas se olhando. Havia naquele silêncio tudo o que já tinham dito e, sobretudo, aquilo que nunca precisaram dizer. Ele se aproximou da cama. — Ainda acordada? Ela sorriu. — Estava esperando você. Ele sentou-se ao lado dela e passou os dedos lentamente por seus cabelos. Um gesto simples, quase inocente, mas que fez seu corpo inteiro se lembrar de outras noites, de outros abraços, de uma intimidade que o tempo não havia conseguido apagar. Ela segurou sua mão e a levou aos lábios. Foi quando ele percebeu que ainda a desejava com a mesma intensidad...

Tente Esquecer Esses Anos

Foi numa tarde de domingo que ela pediu. Não houve discussão. Não havia ninguém chorando, nem portas batendo. Estavam sentadas na varanda, diante de duas xícaras de café, e o assunto vinha de longe, atravessando anos que nenhuma das duas tinha coragem de contar em voz alta. — Tente esquecer esses anos — disse a irmã. Ela olhou para o jardim. A roseira estava cheia de folhas, mas poucas rosas. Era assim havia algum tempo. A mãe costumava dizer que algumas plantas precisavam sofrer um pouco para voltar a florir. Ela nunca acreditou muito nessas explicações. Plantas tinham suas razões, pessoas tinham outras. — Quais anos? — perguntou. A irmã não respondeu. Talvez porque soubesse que não eram apenas aqueles anos de brigas, de silêncio, de doença, de dinheiro contado e de visitas que terminavam antes da hora. Eram também os outros. Os anos bons. Os aniversários. As viagens de carro. O pai vivo. A mãe fazendo bolo na cozinha. As crianças correndo pelo corredor. O irmão chegan...

Quando és Tua Própria Salvação

  Naquela manhã, ela acordou antes do despertador. Ficou alguns minutos olhando para o teto, sem vontade de levantar e sem conseguir voltar a dormir. A casa estava silenciosa. Na cozinha, havia uma xícara esquecida na pia desde a noite anterior e, sobre a mesa, um papel com duas coisas escritas: pagar a conta de luz e ligar para o banco. Era pouco. Naquele momento, parecia muito. Levantou devagar, abriu a janela e deixou entrar o ar frio da manhã. Fez café para uma pessoa. Durante anos, tinha feito café para duas. Ainda demorava alguns segundos para lembrar que não precisava mais colocar a segunda xícara. Sentou-se à mesa. O telefone tocou. Ela olhou, mas não atendeu. Sabia quem era. Sabia também o que ouviria: perguntas, conselhos, preocupação. Não estava com disposição para explicar como tinha passado a noite. Depois de alguns minutos, o telefone parou. Ela terminou o café, lavou a xícara e foi tomar banho. Vestiu uma calça antiga, uma blusa azul e penteou...

O Direito de Ir Embora

  Ela tinha começado a desconfiar da própria saudade. Não porque amasse menos. Era justamente o contrário. Amava tanto que já não sabia distinguir a lembrança da obrigação de lembrar. A casa continuava cheia dele. Não apenas das coisas que ficaram, mas daquilo que ela fazia questão de conservar: o lado da cama, as fotografias, as músicas, os lugares, as histórias repetidas até perderem a novidade e ganharem a solenidade das coisas sagradas. Ela alimentava a saudade. Dava-lhe café. Dava-lhe música. Dava-lhe fotografias. Dava-lhe as conversas que já não podiam acontecer. E a saudade, agradecida, crescia. Havia dias em que ela passava horas reconstruindo o homem dentro da cabeça. O jeito de andar. A voz. Uma frase qualquer. O movimento da mão. O riso. O modo de entrar numa sala. Reconstruía tudo. Depois sofria porque ele não estava ali. Começou a perceber a crueldade daquilo. Estava fabricando a presença para sofrer com a ausência. Foi procurar uma mu...

Quando o Tempo Muda de Lugar

Não sei mais se empurro o tempo ou se o tempo me empurra. Só sei que, em algum momento da vida, começamos a sentir o tempo batendo diferente à nossa porta. E, quando ele bate, traz consigo emoções amontoadas, algumas que reconhecemos, outras que nem sabemos nomear. Nossa geração atravessou quase todos os tempos. Conhecemos o tempo em que não havia nada. Ou quase nada. O rádio era companhia, o telefone tinha fio, a televisão chegou depois, ocupando um lugar de honra na sala. As fotografias precisavam ser reveladas, as cartas esperavam dias para chegar, e a gente sabia esperar. Depois vieram as máquinas de escrever, as calculadoras, os primeiros computadores. Passamos do papel para a tela, do telefone com fio para o celular, da fotografia guardada em álbuns para milhares de imagens que cabem dentro de um pequeno aparelho. Vimos nascer a internet e, com ela, um mundo que parecia impossível. De repente, podíamos falar com alguém do outro lado do planeta sem esperar uma carta, v...