Nossas Sombras


Todos nós temos sombras.

Algumas nasceram de coisas que vivemos. Outras, de coisas que não conseguimos viver.

Há as que vieram de uma perda, de uma despedida, de uma palavra que ouvimos quando ainda éramos pequenos e nunca esquecemos.

E há aquelas que nós mesmos criamos.

Escondemos o medo porque precisamos parecer fortes. Escondemos a tristeza porque não queremos preocupar ninguém. Escondemos a raiva, o ciúme, a culpa, a saudade. Guardamos desejos que julgamos inadequados e sentimentos que não combinam com a pessoa que acreditamos precisar ser.

Vamos escondendo.

Uma coisa sobre a outra.

Até que tudo isso começa a formar uma sombra.

Ela não aparece de imediato. Vai crescendo nos cantos, silenciosamente. Às vezes se manifesta numa irritação que não entendemos, numa tristeza que chega sem convite, numa vontade inexplicável de fugir de um lugar, de uma pessoa ou até de nós mesmos.

E seguimos escondendo.

Porque é mais fácil dizer que estamos bem do que admitir que alguma coisa ainda dói.

Só que nossas sombras têm uma insistência que nós não temos.

Elas esperam.

Esperam uma brecha, uma noite silenciosa, uma música, uma fotografia, um cheiro, uma lembrança qualquer.

E emergem.

Nem sempre de maneira delicada.

Pode ser numa lágrima que não conseguimos segurar. Numa palavra atravessada. Num abraço demorado. Numa lembrança que retorna depois de muitos anos.

Talvez não seja preciso expulsar nossas sombras.

Elas fazem parte daquilo que somos.

Algumas carregam dores. Outras guardam amores. Há sombras que nasceram de erros e outras de sonhos que ficaram pelo caminho.

Passamos tanto tempo tentando escondê-las que esquecemos que, em algum momento, elas vão querer respirar.

E quando emergem, já não são exatamente as mesmas.

Nem nós.

Porque há coisas que só deixam de nos perseguir quando encontram espaço para existir.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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