Entre Lençóis


A noite havia chegado devagar, como se também soubesse que algumas coisas não deveriam ser apressadas.

No quarto, apenas a luz amarelada do abajur atravessava a penumbra. A janela permanecia entreaberta, deixando entrar o perfume úmido da noite e um vento leve que fazia a cortina se mover.

Ela estava deitada, coberta até a cintura pelo lençol branco. Não dormia.

Ele entrou sem fazer barulho.

Por alguns segundos, ficaram apenas se olhando. Havia naquele silêncio tudo o que já tinham dito e, sobretudo, aquilo que nunca precisaram dizer.

Ele se aproximou da cama.

— Ainda acordada?

Ela sorriu.

— Estava esperando você.

Ele sentou-se ao lado dela e passou os dedos lentamente por seus cabelos. Um gesto simples, quase inocente, mas que fez seu corpo inteiro se lembrar de outras noites, de outros abraços, de uma intimidade que o tempo não havia conseguido apagar.

Ela segurou sua mão e a levou aos lábios.

Foi quando ele percebeu que ainda a desejava com a mesma intensidade.

Talvez até mais.

Porque agora conhecia cada silêncio dela, cada pequena mudança em sua respiração, o jeito como fechava os olhos quando queria guardar um instante para si.

Ele se inclinou.

O beijo começou breve, quase uma pergunta.

Ela respondeu aproximando-se.

E então o beijo demorou.

Demorou como demoram as coisas que foram esperadas por muito tempo.

Entre um beijo e outro, riram baixinho. As mãos se encontraram sobre o lençol, os dedos se entrelaçaram, e por alguns instantes nenhum dos dois pareceu ter idade, passado ou futuro.

Havia somente aquela noite.

Somente os dois.

Ela encostou a cabeça em seu peito.

— Sabe o que eu mais gosto em nós?

— O quê?

— Que ainda conseguimos nos surpreender.

Ele beijou sua testa.

— Talvez porque nunca terminamos de nos descobrir.

Ela levantou o rosto.

E o beijou outra vez.

Lá fora, a cidade continuava acordada, indiferente àquela pequena felicidade escondida entre quatro paredes.

Ali dentro, porém, o tempo havia parado.

O lençol amassado guardava o desenho dos dois. O quarto, seus suspiros. E a madrugada, aquela espécie de segredo que só pertence aos amantes: a certeza de que existem encontros que não precisam de palavras para serem inesquecíveis.

Quando finalmente ficaram em silêncio, ela repousou a cabeça sobre o travesseiro.

Ele a abraçou por trás.

Ela sorriu no escuro.

Entre lençóis, não havia promessas.

Apenas dois corpos próximos, duas histórias que se reconheciam e uma ternura quase silenciosa.

E, naquela noite, isso bastava.

Silvia Marchiori Buss

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