Pecado Compartilhado
Na rua de trás do mercado, aonde o movimento chegava cansado e sem pressa, havia um banco de madeira encostado num muro baixo. Era ali que tudo acontecia — sem nunca parecer que acontecia nada. Ela costumava chegar primeiro. Não olhava o relógio, mas sabia a hora exata em que o sol começava a escorregar pela parede descascada ao lado. Sentava-se sempre na mesma ponta, como se deixasse um espaço calculado para algo que ainda não tinha forma. Ele vinha depois. Sem anúncio. Sem atraso. Apenas surgia, como se tivesse estado ali o tempo todo e só agora se deixasse ver. No começo, não conversavam. Dividiam o banco como quem divide sombra. Cada um ocupado com o próprio silêncio, sem a obrigação de torná-lo leve. Às vezes, ele acendia um cigarro. Às vezes, ela observava o movimento mínimo das folhas no chão. E isso bastava. Havia uma espécie de acordo mudo naquela convivência: não perguntar, não explicar, não avançar. Foi por isso que, quando começaram a falar, demoraram a perc...