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Mostrando postagens de abril, 2026

Pecado Compartilhado

Na rua de trás do mercado, aonde o movimento chegava cansado e sem pressa, havia um banco de madeira encostado num muro baixo. Era ali que tudo acontecia — sem nunca parecer que acontecia nada. Ela costumava chegar primeiro. Não olhava o relógio, mas sabia a hora exata em que o sol começava a escorregar pela parede descascada ao lado. Sentava-se sempre na mesma ponta, como se deixasse um espaço calculado para algo que ainda não tinha forma. Ele vinha depois. Sem anúncio. Sem atraso. Apenas surgia, como se tivesse estado ali o tempo todo e só agora se deixasse ver. No começo, não conversavam. Dividiam o banco como quem divide sombra. Cada um ocupado com o próprio silêncio, sem a obrigação de torná-lo leve. Às vezes, ele acendia um cigarro. Às vezes, ela observava o movimento mínimo das folhas no chão. E isso bastava. Havia uma espécie de acordo mudo naquela convivência: não perguntar, não explicar, não avançar. Foi por isso que, quando começaram a falar, demoraram a perc...

O Outro Lado da Moeda

A moeda ficou esquecida no fundo da bolsa, entre um lenço amarrotado e um papel onde já não se distinguia o que fora escrito. Não era rara, nem antiga, nem brilhava mais do que qualquer outra. Ainda assim, havia nela um peso que não vinha do metal. Sofia a encontrou por acaso, procurando algo que não lembrava exatamente o que era. Tirou-a com dois dedos, como quem recolhe um pequeno resto de mundo, e deixou-a repousar na palma da mão. Girou-a uma vez, sem olhar. O gesto automático de quem já decidiu tantas coisas no ar. Cara. Ou talvez não. A luz da tarde entrava enviesada pela janela, tocando o relevo gasto. De um lado, um rosto que já perdera a nitidez. Do outro, números quase apagados. Era difícil saber onde começava um e terminava o outro — como certas lembranças que, com o tempo, deixam de ter borda. Sofia apoiou a moeda na mesa. Ficou olhando, como se ela pudesse devolver alguma resposta que não havia sido feita em voz alta. Havia dias em que tudo parecia resolvido de...

Aquela Parte da Vida Que Não Volta

Não começou com uma lembrança. Começou com um erro pequeno — desses que não pedem atenção. Ela abriu a gaveta errada. Dentro, não estavam os talheres. Nem as contas atrasadas. Nem os remédios organizados por dia da semana. Havia uma meia só, um ingresso dobrado, uma chave que não servia mais para porta alguma e um cheiro muito específico — não de coisa guardada, mas de coisa interrompida. Fechou a gaveta com cuidado, como se pudesse acordar alguém ali dentro. Naquela manhã, tudo parecia deslocado alguns centímetros. A mesa, o barulho da rua, até o próprio corpo, como se tivesse sido colocado de volta no lugar com leve imprecisão. Caminhou pela casa testando os objetos com a ponta dos dedos — a cadeira firme, o vidro frio, a borda conhecida da pia. Nada cedia. Era só ela que não encaixava. Foi então que percebeu: havia uma parte da vida que não estava mais disponível. Não ausente como quem sai de viagem, mas retirada — como uma página arrancada de um livro que continua sendo ...

Não Lhe Prometo Sol Nem Lua Cheia

Ele disse isso sem levantar a voz, como quem coloca um copo na mesa e sabe que alguém vai encontrar depois. Não lhe prometo sol nem lua cheia. Ela não respondeu. Havia coisas que, quando ditas assim, sem enfeite, não pediam resposta — pediam espaço. E ela ficou ali, ocupando o espaço entre as palavras dele, como se coubesse inteira naquele intervalo. Era fim de tarde, mas não daquele tipo bonito que se descreve. A luz vinha meio atravessada, pegando os móveis de lado, revelando poeiras antigas que ninguém mais limpava direito. A casa tinha esse cansaço de quem já foi muito habitada. Ele estava de pé, perto da janela que não fechava bem. O vento entrava fino, insistente, mexendo na cortina como se procurasse alguma coisa que não estava mais ali. — E o que você promete? — ela perguntou depois de um tempo que não dava para medir. Ele demorou. Não porque pensasse muito, mas porque parecia escutar outra coisa antes de responder. Talvez o rangido do assoalho, talvez o próprio pei...

Entre Dois Lados de Mim

  Ela colecionava horários que não usava. Não eram compromissos. Eram horas exatas que ela guardava num caderno pequeno, de capa dura, onde anotava coisas como: 16h12 — a luz bateu na parede do corredor de um jeito que parecia outro lugar. Ou 07h43 — o café esfriou antes da primeira xícara terminar. Não havia explicação para aquilo. Nem tentativa de organizar. Apenas acumulava. Ninguém sabia. Durante o dia, ela funcionava como qualquer outra pessoa que cumpre o que precisa ser feito. Respondia mensagens, atravessava ruas, pagava contas, dizia “depois eu vejo isso” como quem realmente veria. Mas havia uma atenção paralela, quase invisível, que registrava desvios mínimos — coisas que não alteravam o rumo de nada, mas também não passavam ilesas. Foi assim que começou a perceber um atraso. Não no relógio. Em si. As coisas aconteciam e, segundos depois, chegavam nela. Como se houvesse um pequeno intervalo entre o mundo e a sua compreensão. Não era distração. Era um tipo de d...

Uma Quase Comédia Humana

Deram-lhe uma ficha de metal, sem nome, sem data, sem explicação. Apenas um número torto, gravado com pressa, como se até a eternidade andasse sem tempo. Ele quis perguntar alguma coisa, mas ninguém ali parecia encarregado de responder. Havia apenas um corredor longo, um balcão gasto, algumas portas entreabertas e uma fila que avançava com a solenidade das coisas absurdas. Não era um lugar de dor escancarada. Pior: era um lugar de procedimentos. Entrou na fila como quem entra num destino por engano. O chão, de tão pisado, perdera qualquer convicção. As paredes tinham uma cor indecisa, entre o encardido e o resignado. Acima das portas, placas modestas anunciavam setores que não prometiam nada de bom: Pendências Afetivas, Omissões Reincidentes, Orgulho de Pequeno Porte, Culpa Mal Declarada, Promessas Feitas em Voz Baixa. Ele leu duas ou três vezes, esperando que aquilo se tornasse menos ridículo. Não ficou. À sua frente, uma mulher segurava o próprio passado com as duas mãos, c...

Fora de Quatro Paredes

O vento era o primeiro a tocar. Chegava antes das mãos, antes das palavras, antes mesmo de qualquer decisão. Levantava os cabelos dela com uma intimidade antiga, dessas que não pedem licença porque já conhecem o caminho. Eles não tinham marcado nada. Nem hora, nem gesto, nem o que fariam com o encontro. Apenas saíram — cada um de um lado da cidade — como se obedecessem a um chamado que não vinha de fora. Ela o viu primeiro. Encostado no parapeito de pedra, olhando o lago como quem tenta decifrar uma superfície calma demais. Não parecia esperar por alguém. E talvez não estivesse. Havia nele uma quietude que não era solidão, mas escolha. Ela se aproximou sem pressa. Os passos não denunciavam urgência — havia, antes, uma curiosidade leve, quase um cuidado em não quebrar o instante antes de tocá-lo. — Você sempre olha assim? — perguntou, parando ao lado dele. Ele não se virou imediatamente. — Assim como? — Como se o mundo estivesse prestes a dizer alguma coisa… e você não...

"Whos`s Holding Donna Now....Quem Está Com Você agora.."

O rádio não tocava alto. Nunca mais. Ficava ali, numa altura suficiente para não preencher o quarto inteiro — só um canto dele, como se a música também tivesse aprendido a não invadir. A primeira vez que aquela canção voltou, ela não prestou atenção no início. Estava na cozinha, abrindo e fechando gavetas sem precisar de nada específico. O som veio como vêm certas lembranças: sem pedir licença, mas sem força suficiente para ser impedido. Foi só no refrão que o corpo reconheceu antes da cabeça. Uma frase repetida, simples demais para não doer. Ela parou com a mão dentro da gaveta. Ficou assim por alguns segundos, como se estivesse esperando que a música passasse sozinha, como passam os carros na rua. Mas não passou. Continuou ali, insistente. Who’s holding Donna now? — Quem está com você agora? Who’s heart is she gonna take? — Quem ocupa o meu lugar? Does she still care? — Será que ainda existe um pedaço de nós em algum lugar? Ela fechou a gaveta devagar. Encostou n...

As Coisas Que Não Dizemos

O jantar já tinha esfriado quando Laís percebeu que Vitor não viria à mesa. Não era atraso. Era ausência — dessas que começam pequenas, quase educadas, e vão ficando mais largas com o tempo. Ele estava no outro cômodo, ela sabia. O som baixo da televisão atravessava o corredor, junto com aquela sensação antiga de que havia algo entre eles que não cabia mais em palavra nenhuma. Ela não chamou. Antes, chamava. Dizia o nome dele com uma naturalidade que hoje parecia pertencer a outra casa, outra mulher. Agora, ficou sentada, olhando o prato, como se ainda esperasse que o gesto de esperar resolvesse alguma coisa. Vitor, do outro lado, também sabia que ela estava ali. Pensou em levantar. Pensou em dizer qualquer coisa simples — “já vou”, “me espera”, “estou cansado hoje”. Não disse. Ficou onde estava, com o controle remoto na mão, mudando de canal sem realmente ver nada. Não era falta de assunto. Era o contrário. Havia coisas demais acumuladas entre eles. O dia em que ele es...

A Conta Que Não Fecha

Chamaram de acerto de contas, mas ninguém soube dizer com quem. Veio num papel fino, dobrado em três, sem timbre, sem assinatura — apenas uma frase: comparecer com o que deve . Arnaldo levou aquilo para a mesa do almoço como quem leva sal. Leu em voz alta, mastigando devagar, como se as palavras fossem parte da comida. — Devo o quê? — perguntou, mais para o prato do que para a mulher. Lúcia não respondeu. Estava ocupada em retirar uma espinha invisível do peixe, gesto minucioso que não resolvia nada. O filho, no canto, ria de um vídeo qualquer. A vida, ali, seguia com uma desenvoltura quase ofensiva. Arnaldo dobrou o papel com cuidado, guardou no bolso da camisa e saiu. Não disse para onde. Nem ele sabia. Na rua, o dia tinha uma luz limpa demais para quem carregava cobranças. As pessoas passavam com sacolas, compromissos, pequenos destinos resolvidos. Ele andou sem direção, como quem tenta lembrar um endereço que nunca teve. Parou diante de uma igreja. Não por fé — por somb...

Inteira Demais para Caber no Agora

Nossa vida foi tão boa que doía — não enquanto acontecia, mas agora, que sobra inteira dentro de mim. Não era perfeita. Nunca foi. Havia dias ásperos, silêncios que demoravam mais do que deviam, pequenas impaciências espalhadas pela casa como objetos fora do lugar. Mas nada disso pedia conserto. Era só o modo como a vida respirava entre nós. Eu não tiraria nada. Nem os atrasos, nem as discussões bobas sobre coisas que hoje nem lembro direito. Nem o jeito como você deixava a luz acesa no corredor, como se a casa precisasse de vigília. Nem as manhãs em que o café esfriava porque a conversa tinha mais urgência do que o tempo. Tudo cabia. Talvez seja isso que pesa. Porque agora não há mais onde colocar o que ainda vive. As lembranças não diminuem com o tempo — elas se organizam melhor, ocupam menos espaço visível, mas ficam mais densas. Como se cada detalhe aprendido ao seu lado tivesse criado raiz. Tem dias em que quase não penso. Sigo. Faço o que precisa ser feito. Abro janel...

O Lugar Onde a Dor Não se Delega

Há um ponto em que a dor deixa de procurar saída nos outros e começa a pedir lugar dentro de quem a carrega. Não acontece de forma nobre. Nem clara. É mais como um cansaço de explicar o que não cabe em palavra nenhuma. A pessoa percebe, aos poucos, que repetir a história não muda o que foi perdido — seja uma morte, uma separação, um futuro que não chegou a existir, uma decepção que ficou aberta como uma porta que ninguém fecha. É aí que o amor-próprio deixa de ser ideia e passa a ser gesto. Um gesto pequeno, quase invisível: parar de se abandonar no meio da própria dor. Não é se consolar com frases prontas. Não é se convencer de que “vai passar”. É algo mais duro e mais honesto: ficar. Ficar com o que dói sem tentar se trair para caber melhor no entendimento dos outros. Sem diminuir o que sente para não incomodar. Sem exagerar para ser visto. Ficar. Nesse ficar, nasce uma força que não aparece para fora. Não é a força de quem supera. É a de quem sustenta. Quem entende que c...

Onde o Instante se Basta

  Chamam de autotélio(autotélico) aquilo que não precisa ir além de si para existir. Mas, fora da palavra, isso quase não tem nome. Acontece quando alguém permanece um pouco mais do que o necessário. Quando a mão não larga o livro mesmo depois da última linha. Quando a música termina e ninguém corre para a próxima. Há um tipo de gesto que não se oferece a ninguém. Não pede retorno, não se organiza em função de um depois. Ele acontece e fica — inteiro no próprio instante. Num tempo em que tudo parece precisar servir para alguma coisa, o que não serve causa estranheza. Como se fosse desperdício. Como se fosse falha. Mas não é. Há um valor quieto em fazer algo que não se transforma em resultado. Em sustentar um momento que não será contado, nem repetido, nem provado. Algo que não se arquiva. Talvez seja por isso que certos instantes passam quase despercebidos: porque não deixam marcas úteis. Não constroem narrativa. Não melhoram nada. E, ainda assim, ficam. ...

Somos Sós Dentro da Própria Pele

  Somos sós dentro da própria pele... Sim. E o pior não é a solidão. É a impossibilidade de fuga. Somos sós dentro da própria pele — não como quem está abandonado, mas como quem está irremediavelmente contido. Não há porta. Não há intervalo. Não há descanso de si. O mundo inteiro pode encostar em você — mãos, vozes, promessas, corpos — e ainda assim há um núcleo onde ninguém chega. Um ponto mudo, fechado, que não se traduz. É ali que a vida realmente acontece. E é ali que ninguém testemunha. O amor tenta. Chega perto, às vezes muito perto. Aprende os contornos, decora gestos, antecipa silêncios. Mas sempre esbarra nesse limite invisível onde tudo se desfaz em superfície. Não por falha. Por natureza. Penso que existir é uma experiência sem compartilhamento total. Uma travessia que até pode ser acompanhada, mas nunca dividida. E o corpo sabe. Por isso há momentos em que tudo irrita — a conversa, o toque, a presença do outro — não porque o outro seja insuficien...

Preenchendo Silêncios

A gente foi ensinada a preencher espaços. Responder rápido, sustentar a conversa, não deixar cair. Como se o silêncio fosse sempre um descuido, um intervalo mal resolvido. Mas nem todo silêncio precisa de resgate. Há momentos em que qualquer palavra chega menor do que aquilo que já está ali. Forçar uma frase é quase desrespeitar o que o silêncio conseguiu dizer sozinho. Como interromper uma música antes da última nota se dissipar no ar. Porque o silêncio diz. Diz no olhar que não desvia, no gesto que não se apressa, na pausa que não pede explicação. Diz na respiração que desacelera quando já não há nada a provar. Diz o que não cabe em frase organizada, o que não se deixa traduzir sem perder alguma coisa pelo caminho. E, às vezes, é mais honesto deixar assim. A gente nem sempre percebe, mas existe uma pressa em nomear tudo. Em explicar o que sente, em organizar o que vive, em dar forma imediata ao que ainda está em trânsito. Como se o mundo só fosse legítimo depois de dito....

O Prato no Chão

Ela dizia — e repetia como quem se convence — que estava “equilibrando os pratos”. Não era metáfora bonita. Era barulho mesmo. Porcelana fina, herdada, comprada em promoção, ganhada em casamento. Pratos de todo tipo girando sobre as mãos, os ombros, a ponta de uma disciplina que já não era escolha — era hábito. Três filhos adolescentes orbitando com suas urgências, um marido chamado Augusto que já não perguntava, apenas supunha, e ela no meio, corrigindo provas enquanto mexia a panela, enquanto respondia mensagens, enquanto sorria no lugar certo. Nada caía. E esse era o problema. Porque nada cair exigia um corpo inteiro em estado de alerta. Não havia pausa. Nem distração. Nem falha permitida. A perfeição, naquele caso, não era qualidade — era contenção. Foi numa tarde comum que algo deslocou. Não um grande acontecimento, nada que justificasse. Um atraso pequeno. Um esquecimento mínimo. Um prato — só um — que escorregou. Não quebrou. Mas fez um som. Um som seco, deslocad...

Enquanto a Coruja pia

Havia uma demora dentro da casa que não vinha do relógio. Como se alguma coisa tivesse sido interrompida no meio de um gesto — e ninguém tivesse voltado para terminar. A luz seguia acesa sem motivo claro. O livro aberto sobre a mesa não era lido havia tempo, embora permanecesse ali, obediente, como se ainda esperasse olhos que já não se demoravam. Um copo pela metade, um prato limpo demais. Pequenos excessos de silêncio ocupando os lugares do que antes era uso. Yvi estava sentada, mas não exatamente presente. O corpo alinhado à cadeira, as mãos próximas do livro, tudo no lugar — menos ela. Foi então que o som atravessou a noite. Um som seco, repetido, como quem marca um tempo que ninguém pediu para contar. Não era alto, mas insistia. De algum ponto da árvore — a mais antiga do terreno, de tronco grosso e casca ferida — vinha aquele chamado que atravessava a noite sem pedir licença. Dentro da casa, nada reagiu de imediato. A luz permaneceu acesa. O livro aberto. O copo pel...