Tente Esquecer Esses Anos


Foi numa tarde de domingo que ela pediu.

Não houve discussão. Não havia ninguém chorando, nem portas batendo. Estavam sentadas na varanda, diante de duas xícaras de café, e o assunto vinha de longe, atravessando anos que nenhuma das duas tinha coragem de contar em voz alta.

— Tente esquecer esses anos — disse a irmã.

Ela olhou para o jardim.

A roseira estava cheia de folhas, mas poucas rosas. Era assim havia algum tempo. A mãe costumava dizer que algumas plantas precisavam sofrer um pouco para voltar a florir. Ela nunca acreditou muito nessas explicações. Plantas tinham suas razões, pessoas tinham outras.

— Quais anos? — perguntou.

A irmã não respondeu.

Talvez porque soubesse que não eram apenas aqueles anos de brigas, de silêncio, de doença, de dinheiro contado e de visitas que terminavam antes da hora. Eram também os outros. Os anos bons. Os aniversários. As viagens de carro. O pai vivo. A mãe fazendo bolo na cozinha. As crianças correndo pelo corredor. O irmão chegando sem avisar.

Esquecer os anos ruins seria fácil, se eles não viessem sempre acompanhados dos bons.

Ela levantou para buscar mais café.

Na cozinha, encontrou a velha lata de biscoitos em cima do armário. Estava vazia, como quase sempre. Abriu mesmo assim.

Dentro havia uma chave.

Ficou algum tempo olhando para ela.

Era pequena, enferrujada, com uma etiqueta de papel amarelada onde ainda se podia ler uma palavra escrita à mão: porão.

Não havia porão naquela casa havia mais de vinte anos.

A irmã apareceu na porta.

— Ainda está aí?

Ela mostrou a chave.

As duas ficaram em silêncio.

Ela passou o dedo pela etiqueta amarelada.

— Porão — leu em voz baixa.

A irmã pegou a chave de sua mão e ficou olhando para ela.

Nenhuma das duas falou sobre o porão. Nem sobre a casa antiga. Nem sobre o que havia sido guardado lá dentro.

Depois de alguns segundos, a irmã devolveu a chave.

— Ainda está aí?

Ela não soube se a pergunta era sobre a chave ou sobre outra coisa.

Ela voltou para a varanda com as duas xícaras.

O café estava frio.

— Eu tentei — disse.

— O quê?

— Esquecer.

A irmã baixou os olhos.

Ela não precisava contar que havia jogado cartas fora, queimado fotografias, mudado os móveis de lugar, trocado o número do telefone e evitado passar por determinadas ruas. Não precisava dizer que, durante muito tempo, acreditou que uma pessoa pudesse se livrar de uma época da mesma maneira que se livra de uma roupa velha.

Não conseguiu.

Os anos tinham ficado.

Não inteiros. Espalhados.

Um pedaço numa música que tocava no rádio. Outro no cheiro de uma cozinha. Um nome que aparecia numa lista de convidados. Uma fotografia atrás de outra fotografia. Às vezes, num gesto qualquer de alguém que já nem sabia de onde ele vinha.

A irmã pegou a chave e girou-a entre os dedos.

— Então guarda.

— Para quê?

— Não sei.

Ela sorriu.

Era talvez a única resposta honesta que tinham tido naquela tarde.

Antes de irem embora, ela entrou em casa e abriu a gaveta da sala. Colocou a chave ali, entre documentos antigos e uma fita métrica que não usava havia anos.

Fechou a gaveta.

Não havia nada resolvido.

Lá fora, a roseira continuava cheia de folhas, quase sem flores.

E, dentro da casa, os anos permaneciam onde sempre estiveram: ocupando espaços que pareciam vazios.

Silvia Marchiori Buss

 

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