O Direito de Ir Embora


 Ela tinha começado a desconfiar da própria saudade.

Não porque amasse menos.

Era justamente o contrário.

Amava tanto que já não sabia distinguir a lembrança da obrigação de lembrar.

A casa continuava cheia dele. Não apenas das coisas que ficaram, mas daquilo que ela fazia questão de conservar: o lado da cama, as fotografias, as músicas, os lugares, as histórias repetidas até perderem a novidade e ganharem a solenidade das coisas sagradas.

Ela alimentava a saudade.

Dava-lhe café.

Dava-lhe música.

Dava-lhe fotografias.

Dava-lhe as conversas que já não podiam acontecer.

E a saudade, agradecida, crescia.

Havia dias em que ela passava horas reconstruindo o homem dentro da cabeça. O jeito de andar. A voz. Uma frase qualquer. O movimento da mão. O riso. O modo de entrar numa sala.

Reconstruía tudo.

Depois sofria porque ele não estava ali.

Começou a perceber a crueldade daquilo.

Estava fabricando a presença para sofrer com a ausência.

Foi procurar uma mulher que conhecia aquele território.

Encontrou-a numa tarde sem importância, dessas que não anunciam nada.

— Você conseguiu? — perguntou.

— O quê?

— Viver depois.

A outra sorriu sem alegria.

— Ninguém vive depois. A gente vive durante. Depois é uma palavra que inventamos para fingir que o tempo obedece.

Ela insistiu:

— Então como você fez?

— Fiz o quê?

— Pare de responder como filósofa. Quero saber como você parou de sentir essa dor.

— Não parei.

Silêncio.

— Então como suporta?

— Em alguns dias, não suporto.

Aquilo lhe pareceu uma resposta honesta.

— E nos outros?

— Nos outros eu não faço da saudade uma profissão.

Ela franziu a testa.

— Como assim?

— Você trabalha para a sua saudade.

A frase a atingiu.

— Eu amo.

— Eu sei. Mas amor não é a mesma coisa que manutenção de ausência.

Ela ficou quieta.

A outra continuou:

— Você visita o passado todos os dias e depois reclama que ele não devolve ninguém.

— E o que você queria que eu fizesse? Que esquecesse?

— Esquecer é uma palavra pobre para uma perda grande.

— Então?

— Parar de exigir que a lembrança faça o trabalho da presença.

Ela baixou os olhos.

— Eu ainda preciso dele.

— Precisa. Mas ele não pode mais responder à sua necessidade.

— Isso é cruel.

— A morte é cruel. Não transforme a crueldade dela numa condenação sua.

Ela sentiu raiva.

— Você fala como se fosse simples.

— Não é simples. É definitivo. Há uma diferença.

Aquela palavra ficou dentro dela.

Definitivo.

Não havia argumento contra o definitivo.

Não havia negociação.

Não havia cuidado capaz de mudar a sentença.

Ela respirou fundo.

— Eu tenho raiva dele.

— Por quê?

— Porque ele foi embora.

A mulher não a corrigiu.

— Então diga.

— Eu tenho raiva porque ele foi embora e me deixou aqui com tudo.

— Ótimo.

Ela levantou os olhos, surpresa.

— Ótimo?

— Finalmente você está falando com quem morreu, e não apenas sobre quem morreu.

Ela quase sorriu.

— E o que eu digo?

— Diga que você está com raiva. Diga que foi injusto. Diga que você queria mais tempo. Diga que não aceita. Diga tudo.

— E depois?

— Depois perdoe.

— Perdoar o quê?

— A ausência.

Ela demorou.

— Como se perdoa uma coisa que não foi escolha dele?

— É justamente por isso. Você não perdoa uma culpa. Perdoa o fato de que a vida não lhe deve explicações.

Ela ficou olhando para aquela mulher.

Havia ali uma espécie de dureza que não era falta de amor.

Era amor sem ilusões.

— E o ponto final?

— Você quer mesmo dar um ponto final?

— Preciso.

— Então dê.

— Como?

— Pare de fazer da lembrança uma casa onde você ainda mora.

Ela sentiu os olhos arderem.

— Mas ele está em mim.

— Eu sei. E é aí que ele deve ficar.

A resposta veio sem consolo.

Talvez por isso tenha entrado tão fundo.

Ela entendeu que o ponto final não seria numa história de amor.

Seria na continuação de uma vida que já tinha terminado.

O ponto final seria aceitar que aquele homem não precisava morrer todos os dias dentro dela para continuar sendo amado.

Seria parar de convocá-lo para cada manhã.

Parar de perguntar o que ele acharia.

Parar de medir os dias pela falta que ele fazia.

Parar de transformar cada coisa bonita numa acusação contra a vida.

Ela não precisava expulsá-lo.

Precisava deixá-lo ir.

Havia uma diferença enorme.

Expulsar seria negar.

Deixar ir seria reconhecer.

Naquela noite, em casa, ela entrou no quarto e ficou algum tempo diante da fotografia.

Olhou para ele.

Não pediu nada.

Não conversou.

Não tentou arrancar do silêncio uma resposta.

Disse apenas:

— Você foi embora.

A frase doeu.

Ela continuou:

— Eu não queria que fosse assim. Mas foi.

Passou a mão sobre a fotografia.

— Eu vou sentir sua falta. Provavelmente até o fim.

E, depois de um silêncio comprido:

— Mas você não precisa mais ficar aqui para que eu saiba que esteve.

Guardou a fotografia na gaveta.

Não como quem esconde.

Como quem devolve uma coisa ao seu lugar.

Depois abriu a janela.

A noite entrou no quarto.

E ela ficou ali, sem saber exatamente o que faria no dia seguinte.

Sabia apenas uma coisa: a saudade continuaria existindo.

Mas já não teria o direito de governar a casa inteira.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

 

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