Muito Além de Rótulos
Detesto rótulos.
Talvez porque nunca tenha
conseguido caber direito em nenhum deles.
Separado. Solteiro. Casado.
Viúvo. Divorciado.
Gordo. Magro. Bonito. Feio.
Rico. Pobre.
Bem-sucedido. Fracassado.
Forte. Fraco.
Alegre. Triste.
Como se uma palavra pudesse
dar conta de uma pessoa inteira.
Basta alguém dizer que está
separado e imediatamente aparecem as perguntas que ninguém fez: há quanto
tempo? Por quê? Foi traição? Quem deixou quem? Está sozinho? Já encontrou outra
pessoa?
Se diz que é solteiro, logo
vem a curiosidade sobre a idade, os namoros, a falta de compromisso.
Casado parece ser um estado
civil, mas quase nunca é apenas isso. Há casamentos felizes, outros suportados,
outros que existem apenas no papel e outros que continuam vivos mesmo depois de
uma separação.
E há quem tenha perdido o
marido ou a mulher e descubra que existe ainda outro rótulo para carregar:
viúvo.
Uma palavra curta para uma
ausência enorme.
Também não entendo os
rótulos que damos ao corpo.
Gordo.
Magro.
Bonito.
Feio.
Como se o corpo de alguém
fosse uma espécie de documento público, sujeito à avaliação de quem passa.
Olham para uma mulher e
dizem que ela engordou.
Olham para outra e comentam
que está muito magra.
Quase nunca perguntam como
ela está.
É mais fácil comentar o
corpo do que conhecer a história que existe dentro dele.
Também gostamos de
classificar as pessoas pelo dinheiro.
Rico.
Pobre.
Classe média.
Como se uma conta bancária
revelasse caráter, educação, generosidade ou capacidade de amar.
Conheço gente com muito
dinheiro que vive contando moedas de afeto.
E gente que tem pouco e
oferece o que possui de melhor sem fazer contas.
Há ainda os rótulos
invisíveis.
Inteligente.
Burro.
Culto.
Ignorante.
Corajoso.
Covarde.
Difícil.
Fácil.
Boa pessoa.
Má pessoa.
E esses são ainda mais
perigosos, porque depois que alguém recebe um rótulo, tudo o que faz passa a
ser interpretado por ele.
Se o tímido fala pouco, é
antipático.
Se o extrovertido fica
calado, aconteceu alguma coisa.
Se uma pessoa chora, é
fraca.
Se não chora, não tem
sentimentos.
Se reclama, é pessimista.
Se suporta, é forte.
Mas ninguém sabe o que
aconteceu na noite anterior.
Ninguém sabe quantas vezes
aquela pessoa chorou escondida.
Ninguém sabe o que ela
perdeu, o que ainda espera, o que está tentando reconstruir.
A vida não é uma ficha
cadastral.
A gente muda.
Muda de opinião, de cidade,
de profissão, de corpo, de casa, de amor, de sonhos.
Há quem passe vinte anos
casado e um dia fique sozinho.
Há quem passe a vida
inteira sozinho e seja profundamente amado por muitas pessoas.
Há quem esteja cercado de
gente e se sinta só.
Há quem more sozinho e
nunca se sinta abandonado.
Há quem tenha dinheiro e
viva preocupado.
Há quem tenha pouco e durma
em paz.
Há quem pareça feliz e
esteja atravessando um deserto.
Há quem tenha o rosto
cansado e ainda encontre motivos para rir.
Por isso, cada vez que
alguém tenta me definir com uma palavra, tenho vontade de perguntar:
Você tem certeza de que
sabe quem eu sou?
Porque eu mesma ainda estou
descobrindo.
Sou muitas coisas.
Algumas que escolhi.
Outras que a vida me deu.
Algumas que perdi.
Outras que ainda carrego.
Já fui uma pessoa que não
sou mais.
E ainda serei outras que
hoje nem imagino.
Esse é o problema dos rótulos: eles congelam
pessoas que continuam mudando.
Colocam uma palavra na
testa e esquecem de olhar o rosto.
E eu prefiro o rosto.
Prefiro a conversa.
Prefiro saber o que alguém
pensa quando está sozinho, do que saber seu estado civil.
Prefiro conhecer suas
histórias do que seu peso.
Prefiro saber o que faz
quando ninguém está olhando do que quanto dinheiro tem no banco.
Prefiro descobrir seus
medos, suas delicadezas, suas contradições.
Porque é aí que mora uma
pessoa.
Não na palavra que vem
depois do nome.
Somos muito maiores do que
aquilo que os outros conseguem resumir sobre nós... por isso eu continue
detestando rótulos.
Eles são pequenos demais
para uma vida inteira.
Silvia Marchiori Buss
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