Quando o Tempo Muda de Lugar


Não sei mais se empurro o tempo ou se o tempo me empurra.

Só sei que, em algum momento da vida, começamos a sentir o tempo batendo diferente à nossa porta. E, quando ele bate, traz consigo emoções amontoadas, algumas que reconhecemos, outras que nem sabemos nomear.

Nossa geração atravessou quase todos os tempos.

Conhecemos o tempo em que não havia nada. Ou quase nada. O rádio era companhia, o telefone tinha fio, a televisão chegou depois, ocupando um lugar de honra na sala. As fotografias precisavam ser reveladas, as cartas esperavam dias para chegar, e a gente sabia esperar.

Depois vieram as máquinas de escrever, as calculadoras, os primeiros computadores. Passamos do papel para a tela, do telefone com fio para o celular, da fotografia guardada em álbuns para milhares de imagens que cabem dentro de um pequeno aparelho.

Vimos nascer a internet e, com ela, um mundo que parecia impossível. De repente, podíamos falar com alguém do outro lado do planeta sem esperar uma carta, ver uma pessoa enquanto conversávamos, descobrir em segundos aquilo que antes levaria horas, dias, às vezes uma vida inteira.

E agora vivemos no tempo virtual.

A inteligência artificial conversa conosco. As máquinas aprendem, os rostos aparecem em telas, as notícias chegam antes mesmo que tenhamos tempo de procurá-las. Tudo está perto. Tudo está disponível. Tudo acontece depressa.

Só que o coração não acompanhou a mesma velocidade.

Ele ainda sente como antes. Ainda sente saudade, espera, medo, desejo, perda, encantamento. Ainda precisa de tempo para compreender certas coisas. Demora para aceitar uma ausência, para aprender uma nova maneira de amar, para se acostumar com uma casa silenciosa.

A tecnologia encurtou distâncias, mas não encurtou o tempo que levamos para sentir.

E essa talvez seja a parte mais estranha de ter vivido tantas épocas: aprendemos a acompanhar o mundo, enquanto dentro de nós algumas coisas continuam andando no passo antigo.

Seguimos entre o que fomos e o que estamos aprendendo a ser.

Empurramos o tempo quando conseguimos. Em outros dias, é ele quem nos empurra.

E então chega a quarta-feira.

A quarta-feira solitária da semana. A quarta-feira sem par.

Um dia qualquer para o calendário. Mas não para quem, em algum momento, teve alguém ao lado para dividir as pequenas coisas de uma quarta-feira: o café, uma notícia, o silêncio, a noite chegando devagar.

Agora ela chega sozinha.

E é justamente numa quarta-feira, no meio da semana, sem começo nem fim, que a gente percebe o quanto o tempo mudou.

E o quanto algumas ausências não cabem em calendário algum.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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