A Lista das Criaturas
Um dia aprendemos que a
vida tem três movimentos.
Nascer.
Viver.
Morrer.
Aprendemos isso tão cedo
que parece uma informação simples, dessas que cabem numa frase de livro
escolar. Mas, quando crescemos, descobrimos que não é uma regra feita para nós.
É para tudo que vive.
Uma árvore nasce de uma
semente, cresce, enfrenta o sol, a chuva, o frio, produz flores ou frutos e, um
dia, deixa de existir.
Um pássaro nasce, aprende a
voar, procura alimento, encontra outro pássaro, constrói um ninho. Vive o tempo
que lhe foi dado.
Uma formiga passa a vida
inteira carregando coisas que, para nós, parecem insignificantes. Um cachorro
envelhece ao nosso lado. Uma flor abre pela manhã e pode não estar mais ali
alguns dias depois.
E nós também.
A diferença é que recebemos
uma coisa que nenhum de nós sabe muito bem o que fazer com ela: a capacidade de
pensar sobre tudo isso.
Pensamos sobre a vida
enquanto estamos vivos. Pensamos sobre a morte enquanto ela ainda não chegou.
Guardamos lembranças, fazemos planos, inventamos explicações, construímos
cidades, escrevemos livros, enviamos máquinas para longe da Terra.
Foi essa capacidade que nos
colocou no alto da lista das criaturas.
Ou que nos fez acreditar
que estamos no alto dela.
Porque, apesar de tudo que
inventamos, continuamos sujeitos às mesmas coisas.
Nascemos sem escolher.
Vivemos sem saber exatamente por quanto tempo. E morremos sem poder negociar o
último dia.
Somos frágeis.
Mais frágeis do que
gostamos de admitir.
Um corpo pode adoecer. Um
coração pode parar. Uma árvore pode cair. Um animal pode desaparecer. Uma vida
inteira pode mudar em poucos minutos.
E é justamente o pensamento
que nos torna tão diferentes que também nos faz perceber essa fragilidade.
Sabemos que vamos morrer.
Sabemos que aqueles que
amamos também vão.
Sabemos disso e, ainda
assim, acordamos, tomamos café, reclamamos do trânsito, compramos alguma coisa
de que não precisamos, fazemos planos para o mês que vem e marcamos uma viagem
para o próximo ano.
É curioso.
Sabemos do fim e
continuamos fazendo planos.
Vivemos mesmo sabendo que a
vida não é permanente.
No fundo, não estamos acima
da natureza.
Somos parte dela.
Uma parte que pensa, que
lembra, que sente saudade, que pergunta de onde veio e para onde vai.
Mas ainda uma parte.
Quando entendemos isso,
aquela velha sequência — nascer, viver e morrer — deixa de parecer tão pequena.
Porque ela não conta apenas
a história de cada um de nós.
Conta a história de tudo
aquilo que, por algum tempo, teve a oportunidade de estar vivo.
Silvia Marchiori Buss
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