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Mostrando postagens de março, 2026

Quando a Chuva Molha e Machuca

A chuva começou sem muito barulho. Começou quase sem avisar... Fina, quase leve, dessas que parecem não pedir abrigo. A cidade seguiu — passos apressados, portas se fechando, gente se protegendo do que, à primeira vista, não parecia grande coisa. Ela não correu. Caminhava como quem não precisa chegar, apenas continuar. O casaco já escurecido pela água, o cabelo preso à testa, os sapatos absorvendo o dia com um desconforto lento. Foi numa rua comum que o corpo reconheceu antes do pensamento. Uma padaria ainda acesa, o banco de sempre, a calçada que já tinha sido cenário de outra coisa — riso, talvez, ou promessa. Nada ali indicava importância, mas havia. A chuva mudou ali. Não no céu. Nela. As gotas passaram a encontrar lugares mais fundos, onde o tempo não encosta com frequência. Não era dor grande. Era exata. Ela reduziu o passo. Ao redor, ninguém via. Cada um ocupado em atravessar o próprio dia, desviando da água como quem evita atraso. Havia uma pressa que não era dela. ...

Todos os Dias, Outra Vez

  Acordar e não ter você é como nascer todos os dias — sem parteira, sem anúncio, sem ninguém ao lado para confirmar que é mesmo um começo. Ela já não esperava mais o milagre de abrir os olhos e encontrar o corpo dele ocupando o outro lado da cama. Ainda assim, havia um segundo — curto, quase invisível — em que o mundo hesitava. Um intervalo em que tudo podia ser como antes. Era nesse instante que ela permanecia imóvel, os olhos fechados, como quem segura a respiração para não espantar alguma presença que talvez ainda estivesse ali. Mas o quarto sempre acabava voltando a ser apenas um quarto. O lençol frio, o travesseiro sem marca, o silêncio inteiro. Levantar era outra coisa. Não tinha mais nada de automático naquele gesto. Não havia rotina que desse conta. Era escolha — dura, repetida, às vezes quase ofensa. Levantar significava aceitar que o dia viria mesmo assim, com ou sem ele, com sol atravessando a cortina ou com a chuva fina que riscava o vidro como se escrevesse ...

Antes de Voltar- ou de Não Voltar

  Não foi um lugar que a escolheu. Foi uma espécie de sossego áspero, desses que não acolhem com delicadeza, mas também não expulsam. Havia, acima das trilhas mais conhecidas, um trecho da montanha onde o vento mudava de maneira. Não cessava. Apenas perdia a pressa, como se ali até o ar entendesse que certas coisas não se atravessam sem cuidado. Entre pedras irregulares, manchas de neve antiga e um silêncio que parecia ter idade, ela costumava parar. Não era uma paisagem fácil. Nada ali oferecia conforto no sentido comum da palavra. O chão exigia atenção. As subidas castigavam os joelhos. As mãos, às vezes, precisavam tocar a rocha gelada para que o corpo encontrasse equilíbrio. Quem subia até aquele ponto não ia por distração. Era preciso querer. Ou então já não saber muito bem para onde ir e, por isso mesmo, continuar. Ela subia. Nem sempre no mesmo dia da semana, nem sempre à mesma hora. Subia quando o mundo de baixo lhe apertava as costelas com sua soma de ruídos, o...

Antes de ser Nome Ela era Neve

Nas manhãs em que o mundo ainda não havia decidido o que seria, ela já estava de pé. Não por disciplina, nem por pressa — mas porque a neve chamava. E havia um tipo de chamado que não se ignora, apenas se escuta com o corpo inteiro. A casa onde vivia parecia ter nascido ali por engano e permanecido por teimosia. Pequena, de madeira escurecida, com o telhado sempre um pouco mais branco do que o restante da paisagem, como se quisesse se misturar ao que não era feito de gente. As janelas raramente estavam completamente fechadas. O frio entrava sem pedir licença, mas ela nunca o tratou como invasor. Havia aprendido cedo que o frio não fere quem não luta contra ele. Caminhava pela neve com uma calma que não era lentidão, era entendimento. Cada passo afundava e desaparecia, mas ela não olhava para trás. Sabia que a montanha não guarda rastros — apenas aceita presenças. Os cabelos, quase sempre soltos, acumulavam pequenos cristais de gelo que não derretiam de imediato. Às vezes, par...

Ranhuras do que Permanece

  Nada se repete — nem quando parece. Há uma tendência em tratar as coisas como se voltassem ao lugar exato de antes. Como se houvesse um ponto fixo esperando pacientemente por nós. Não há. O que existe é uma aproximação, às vezes bem feita, às vezes torta, quase sempre silenciosa. O vaso caiu numa manhã qualquer. Não houve dramatização, nem gesto largo. Caiu como caem certas coisas: por um descuido mínimo, uma distração que ninguém consegue nomear depois. O som foi seco, breve, e terminou rápido demais para caber arrependimento. Juntar os cacos não foi difícil. Difícil foi reconhecer cada pedaço como parte de algo que já não existia inteiro. Havia bordas que não encaixavam mais com a precisão de antes, pequenas falhas que exigiam um pouco de insistência, outras que pediam desistência imediata. Nem tudo voltou. Nem tudo quis voltar. Ainda assim, colado, ele permaneceu vaso. Não o mesmo — isso fica evidente quando a luz bate de lado e revela as linhas finas atravessando a ...

Morte Seguida de Breve Alívio

  Não foi um acontecimento, exatamente. Foi mais como quando o vento muda sem avisar — e, de repente, as cortinas deixam de inflar. Naquela casa, havia muito tempo que o ar parecia gasto. Não por falta de janelas, mas por excesso de permanência. Tudo ficava. O cheiro do café da manhã de ontem, a cadeira ligeiramente torta, a marca de um copo esquecido na mesa. Havia também um silêncio antigo, desses que não começam nem terminam — apenas se instalam. Ela caminhava pelos cômodos como quem não quer acordar nada nem ninguém, apesar de viver sozinha. Os objetos já não pediam uso. Apenas existiam. E existir, ali dentro, tinha um peso específico, quase sólido. Era preciso atravessar o ar com cuidado, como se cada gesto pudesse esbarrar em alguma coisa invisível. Às vezes, ela parava no meio do caminho — entre a sala e o corredor — sem lembrar exatamente por que tinha saído de um lugar para chegar ao outro. Não era esquecimento. Era uma espécie de suspensão. Como se o tempo, al...

As Águas de Março e o Que Fica

As águas de março sempre chegam como quem sabe o caminho. Não pedem licença — apenas caem, escorrem, atravessam os dias e vão fechando o verão com uma espécie de despedida bonita, dessas que não fazem barulho, mas deixam tudo diferente. Eu aprendi a olhar para esse tempo como quem abre uma caixa antiga. Não qualquer caixa — uma dessas guardadas com cuidado, onde a gente coloca o que não pode perder. Um porta-joias da vida. Porque março, para mim, não é só chuva. É encontro. É quando percebo, com mais nitidez, quantas vidas caminham junto comigo. Filho. Filha. Amigo. Neta. Irmã. Nomes que não são apenas nomes — são presenças. São pequenos brilhos que, de tão habituais, às vezes a gente esquece de olhar com o devido espanto. E então chove. E é como se cada gota lembrasse: olha bem o que você tem. No meio desse cair manso, quase consigo ouvir — como um fundo antigo de rádio — “É pau, é pedra, é o fim do caminho…” e tudo parece fazer sentido dentro dessa mistura de co...

As Músicas Que Ficaram Sem Ele

Depois que ele morreu, a casa ficou sem som. Não foi decisão. Foi acontecendo. O rádio permaneceu desligado. A televisão muda. Até os ruídos pequenos — o arrastar de uma cadeira, o abrir de uma gaveta — pareciam exagerados dentro daquele espaço. Ela passou a se mover com cuidado, como se qualquer barulho pudesse quebrar alguma coisa que ainda restava. Mas o silêncio cresceu. Entrava pelos cantos, ficava mais tempo do que devia, acompanhava até os gestos mais simples. Havia momentos em que ele parecia maior do que a própria casa. Foi por isso que, um dia, ela ligou o som. Sem escolher muito. Sem procurar uma música específica. Apenas ligou. E deixou. A canção que veio não tinha nada de especial. Era uma dessas que já tinham passado tantas vezes que ninguém mais prestava atenção. Mas ela prestou. Sentou. Ficou. Antes, quando uma música começava, ele parava. Não importava o que estivesse fazendo. Havia um instante em que ele se entregava — inclinava a cabeça,...

O Que é Real..

Às vezes a vida parece simples demais para ser compreendida — e complicada demais para ser explicada. A gente vive cercado de relações. Marido e mulher tentando entender um ao outro depois de anos olhando para o mesmo rosto. Pais e filhos atravessando as mesmas salas da casa, mas muitas vezes falando idiomas diferentes. Irmãos que cresceram sob o mesmo teto e ainda assim guardam lembranças completamente distintas da mesma infância. Amigos que juram conhecer nossas histórias e, mesmo assim, se surpreendem com aquilo que não dissemos. Então surge uma pergunta silenciosa: o que, afinal, é real? Será que o que aconteceu foi exatamente como lembramos? Ou aquilo já passou tantas vezes pelo filtro das emoções que virou outra coisa? A verdade é que cada pessoa carrega uma versão própria do mundo. Um marido lembra da discussão como um mal-entendido pequeno. A esposa lembra da mesma noite como uma ferida aberta. O filho acha que os pais foram duros demais. Os pais pensam que apena...

Aprender a Caber no Inacabado

  Ela não entendia quando diziam que o luto era diferente para cada pessoa. Parecia uma frase pronta, dessas que se dizem para preencher o silêncio quando não há o que dizer. Dor, pensava ela, era dor. Perder era perder. Como poderia caber diferença em algo que rasga do mesmo jeito? No começo, tudo parecia igual para todos: o susto, o corpo que não acredita, o gesto automático de procurar quem já não está. A casa muda de lugar, mesmo sem sair do lugar. Os objetos permanecem, mas perdem a função de antes — viram lembranças pousadas sobre a superfície das coisas. Mas depois… depois o tempo começa a se comportar de maneiras estranhas. Há quem chore todos os dias, como se cada manhã reabrisse a perda. Há quem não chore nunca, como se o corpo tivesse escolhido endurecer para não desmoronar. Há quem fale o nome em voz alta, para manter vivo. E há quem não consiga pronunciá-lo, como se o nome ainda ferisse. Ela começou a perceber que o luto não é uma estrada. É um terren...

Aquilo Que Vive por Dentro

Há dias em que o coração de uma pessoa não é um lugar calmo. É como uma casa onde muitas coisas continuam vivendo ao mesmo tempo. Nenhuma bate à porta. Nenhuma anuncia chegada. Elas simplesmente estão ali. Dentro, lembranças caminham pelos corredores como gente antiga que voltou sem avisar. Uma música esquecida aparece no meio da tarde. O cheiro de café lembra uma cozinha que já não existe mais. Uma frase dita anos atrás retorna inteira, como se tivesse ficado guardada atrás de um móvel. E então alguma coisa começa a se mover. Não é exatamente tristeza. Também não é alegria. É aquilo que vive por dentro. Por fora, nada parece diferente. A pessoa responde mensagens. Arruma a casa. Cumpre pequenas tarefas do dia. Sorri quando alguém conta alguma coisa banal. Mas por dentro pequenas coisas continuam respirando. Uma saudade que não terminou. Um gesto antigo que ainda aquece. Um medo discreto que insiste em permanecer. Um sonho que parecia esquecido, mas que de v...

Depois da Ferida Vem a Casca

Há dias que passam pela vida quase sem deixar marca. Dias leves. Leves como o pó do vento atravessando o espaço entre duas cortinas claras, que se tocam e se afastam devagar, como se conversassem em silêncio. Nesses dias, tudo parece caber dentro do peito sem esforço. O café não esfria esquecido, o telefone não pesa, as lembranças caminham sem ferir. A vida segue como quem caminha por um chão conhecido. Mas há outros dias. Dias em que parece que pisamos em cascalho quente. Cada passo estala sob os pés, áspero, desconfortável, como se o mundo tivesse perdido a delicadeza. O corpo fica mais pesado dentro da própria roupa. O ar entra curto. Ninguém vê. De fora, tudo continua igual: a casa de pé, as cadeiras no lugar, as portas abrindo e fechando como sempre abriram. Mas dentro de alguém existe uma pequena ferida aberta, dessas que não sangram para fora, mas ardêm por dentro como brasa esquecida. A ferida pode ter vindo de muitas coisas. Uma palavra que chegou tarde d...

Rezar é Reconhecer o Desespero

  O que é rezar, afinal? Será que é pedir? Será que é agradecer? Ou será que, às vezes, rezar é apenas admitir que não estamos bem? A gente costuma rezar quando quer que algo mude. Quando precisa de ajuda, de milagre, de solução. Mas há um tipo de oração que não pede nada. Não promete nada. Não negocia nada. Ela apenas reconhece. Existem dias em que nada grave aconteceu — e ainda assim pesa. O corpo acorda estranho. O pensamento fica turvo. Um cansaço sem explicação ocupa os gestos mais simples. E se alguém pergunta “o que houve?”, a resposta não vem. Não houve nada. E, ao mesmo tempo, houve tudo por dentro. É curioso como aprendemos a funcionar mesmo assim. Cumprimos horários. Respondemos mensagens. Dizemos “tudo certo”. Administramos a própria tristeza como quem organiza uma gaveta: fecha e segue. Mas há um momento em que a gaveta não fecha. E talvez seja aí que começa a oração mais honesta. Não aquela cheia de palavras bonitas. Não aquela que organiza frase...

O Barulho do Meu Silêncio

Ela acordava às quatro e dezessete. Não precisava de despertador. O corpo abria os olhos como quem atende a um chamado que não vem de fora. A casa ainda estava inteira no escuro. O prédio, quieto. Só o elevador, às vezes, gemia lá embaixo, como se alguém também tivesse perdido o sono. Ela ficava deitada por alguns minutos, olhando o teto que mal se distinguia da sombra. Havia uma pequena rachadura perto do canto. Conhecia o desenho dela de memória. Seguia com os olhos aquela linha torta como se fosse um caminho. Quando levantava, o chão estava frio. A cozinha guardava o cheiro do café do dia anterior. Ela não acendia todas as luzes — deixava apenas a do fogão, fraca, suficiente para não tropeçar na própria rotina. O silêncio da casa não era vazio. Tinha pequenos ruídos: a madeira dilatando, a água descendo em algum encanamento distante, o motor da geladeira iniciando e parando. E, por baixo disso tudo, havia outra coisa. Uma vibração que não vinha dos objetos. Durante o dia...

O Peso da Saudade

A casa de Laura tinha um silêncio particular. Não era o silêncio das casas abandonadas, onde o pó se acumula e as portas rangem com o vento. Era um silêncio mais doméstico, feito de pequenos sons que ainda insistiam em existir: o relógio da sala marcando os segundos com uma paciência infinita, a chaleira que às vezes estalava sozinha no fogão já desligado, o leve arrastar da cortina quando o ar da tarde entrava pela janela. Laura morava ali havia muitos anos. Tempo suficiente para que os móveis se acomodassem à sua maneira de passar pelos cômodos. Tempo suficiente para que cada objeto soubesse, sem esforço, o lugar onde deveria estar. Na estante da sala havia livros que já não eram abertos com frequência. Alguns tinham anotações nas margens, escritas com uma letra que parecia mais firme do que a de agora. Entre eles, uma fotografia antiga — duas pessoas sentadas num banco de praça, inclinadas uma para a outra como quem compartilha um segredo qualquer. Laura raramente olhava dir...

O Silêncio Entre Dois Dias

Na rua onde morava Helena, as manhãs chegavam devagar. Não era uma rua movimentada. Havia uma padaria pequena na esquina, uma árvore antiga que parecia conhecer todas as estações e algumas casas antigas que resistiam ao tempo com uma dignidade cansada. Helena costumava acordar antes que a cidade estivesse completamente desperta. Não por necessidade. Era um hábito que a vida lhe ensinara. Levantava-se com cuidado, como se o chão ainda estivesse adormecido. Colocava água no fogo, preparava café e abria a janela da cozinha. O ar da manhã entrava com aquela mistura de frio leve e cheiro de terra molhada que às vezes vinha do jardim do vizinho. O primeiro som do dia quase sempre era o mesmo: passos. Miguel passava pela rua por volta das seis e quinze. Caminhava sem pressa, com um casaco escuro e um jeito de quem não tinha destino urgente. Helena nunca soube exatamente para onde ele ia. Talvez ao trabalho, talvez apenas caminhar. No começo, ela apenas o notava. Depois passou a ...