Quase Feliz
Há lugares em que a gente
percebe que está em outro país antes mesmo de sair do aeroporto.
Na Suíça, a organização
chama atenção. Não sei dizer exatamente o que é. Talvez o silêncio. Talvez o
jeito tranquilo de as pessoas se movimentarem, sem aquela pressa que parece
fazer parte dos aeroportos.
Pessoas elegantes passam
com suas malas e mochilas, numa finesse que dá gosto de ver. Não vou comparar
com outros lugares. Nem precisa.
Depois vem o saguão de
saída.
E logo ali, o trem.
Um trem de primeira.
Silencioso, cheiroso,
confortável. As pessoas falam baixo. Algumas olham o celular, outras conversam,
outras simplesmente ficam olhando pela janela.
E há nos rostos uma espécie
de leveza.
Pode ser impressão minha.
Mas parecem felizes.
O fim de semana está
chegando. O sol também. Os últimos dias de um possível veranico se anunciam por
aqui e, pelo jeito, vai dar praia.
Eu gosto dessas pequenas
promessas do tempo.
Chego em casa e volto a
respirar feliz.
Quase feliz.
Porque você sempre vai me
faltar.
É curioso como uma casa
pode estar inteira e, ainda assim, faltar alguém em todos os lugares.
Abro a porta, deixo a mala,
olho ao redor.
Estou de volta.
E você não.
Às vezes penso que já
deveria ter aprendido a conviver melhor com essa ausência. Já faz tempo. Mas o
tempo tem suas próprias regras. Ele organiza algumas coisas, acomoda outras,
mas não sabe exatamente onde guardar uma pessoa que foi parte da nossa vida por
quase cinquenta anos.
Eu ainda não sei.
Talvez nunca saiba.
Trago você nas lembranças.
Em algumas músicas, em certos lugares, em pequenos gestos que faço sem
perceber. Há dias em que uma lembrança chega mansa. Em outros, chega inteira.
E eu continuo.
Volto para casa. Faço
minhas coisas. Saio, viajo, converso, rio. Vejo o lago, as montanhas, os trens
passando no horário. A vida continua oferecendo suas pequenas delicadezas.
E eu aceito.
Só não aprendi ainda a
agradecer sem sentir um aperto.
Sei que tive você por mais
de quarenta anos.
Sei da sorte que foi.
Sei que nem todo mundo tem
a oportunidade de dividir uma vida inteira com o seu amor.
Mas ainda não sou
suficientemente inteligente para transformar essa gratidão em alguma coisa que
não doa.
Talvez um dia.
Por enquanto, chego em
casa, respiro fundo, olho pela janela e penso que a vida pode ser bonita.
Muito bonita.
Só que você sempre vai me
faltar um pouco.
E eu acho que vou continuar
levando essa falta comigo, junto com as malas, pelas estações, pelos
aeroportos, pelos lugares onde ainda vou passar.
Como quem viaja com alguém
que já não pode viajar.
Silvia Marchiori Buss
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