Rosa e Espinho


Dizem que uma roseira sabe mais da vida do que muita gente.

Ela nasce pequena, quase sem chamar atenção.

Depois cresce.

Um galho.

Dois.

E começam a aparecer os espinhos.

Ninguém conta quantos são.

Eles simplesmente estão lá.

Há épocas em que a roseira parece esquecer das flores.

Só espinhos.

Espinhos nos galhos, entre as folhas, escondidos onde a mão não espera.

São os dias difíceis.

Os dias de perda.

De medo.

De espera.

De silêncio.

Depois, sem aviso, aparece uma rosa.

Uma.

Depois outra.

E mais uma.

E a gente se aproxima devagar, porque já sabe dos espinhos.

Mas a rosa está ali.

Vermelha.

Aberta.

Inteira.

Há anos em que a roseira fica carregada de flores.

A vida também.

Amores que chegam.

Filhos que crescem.

Netos.

Amizades.

Uma casa cheia.

Uma viagem esperada.

Uma notícia boa.

Um café tomado sem pressa.

Há outros anos em que quase não há rosas.

E os espinhos parecem ocupar tudo.

Mas eles não duram para sempre.

A roseira conhece o tempo.

Depois da chuva, vem o sol.

Depois do frio, algum botão insiste.

E mesmo quando parece que não haverá mais flor, uma pequena rosa aparece num galho antigo.

Não apaga os espinhos.

Também não precisa.

Ela apenas floresce.

Talvez a vida seja uma roseira assim.

Um punhado de rosas.

Uma quantidade de espinhos que ninguém contou.

Algumas flores enormes.

Outras pequenas.

Algumas que duram pouco.

Outras que ficam.

E há aquelas que a gente perde antes mesmo de conseguir tocar.

No fim, não se trata de contar quantas rosas vieram.

Nem quantos espinhos feriram.

A roseira continua crescendo.

E, enquanto houver um galho, uma folha, um botão escondido...

há uma rosa que ainda não nasceu.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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