Vento Morno
Ela chegou à janela da
pequena casa ainda cedo. Abriu-a e sentiu um vento morno tocar seu rosto.
Era o vento da primavera,
chegando devagar, já nas primeiras horas da manhã. Por um instante, fechou os
olhos.
Sentiu-se abraçada.
Acarinhada. Quase feliz.
O vento passou pelo seu
corpo e ela, sem perceber, abraçou a si mesma. Fez o movimento que tantas vezes
fizera quando era envolvida pelos braços dele. Não era um abraço apertado. Era
daqueles que protegiam. Quase paternal. Um abraço que dizia, sem palavras, que
estava tudo bem.
E ela se arrepiou.
Desde que se conheceram,
Paulo tinha esse jeito de cuidar dela. Um cuidado que não fazia barulho. Estava
nas pequenas coisas, no modo de olhar, de perguntar se ela tinha comido, se
estava com frio, se precisava de alguma coisa.
Ela costumava dividir a
própria vida em duas partes.
AP e DP.
Antes de Paulo. Depois de
Paulo.
Paulo tinha sido uma linha
divisória.
Antes dele, havia o pai. O
homem do colo, do dengo, da proteção. O primeiro amor de uma menina que ainda
não sabia que alguns abraços ficariam para sempre guardados no corpo.
Depois veio Paulo.
O amor era diferente.
Com o pai, havia o dengo.
Com Paulo, a paixão. Mas, de algum modo, os dois amores se encontravam naquele
mesmo lugar: o cuidado.
Ela perdera o pai e, pouco
depois, a vida lhe trouxera Paulo. Como se uma ausência tivesse deixado espaço
para outra presença.
Agora, tantos anos depois,
estava sozinha diante da janela.
Ou quase.
O vento continuava entrando
pela casa.
Ela sorriu, embora os olhos
tivessem se enchido de água.
Estendeu os braços e ficou
assim por alguns segundos, abraçando o ar.
Não sabia se era apenas
vento.
Também não precisava saber.
Fechou a janela devagar e
voltou para dentro.
A manhã continuava lá fora.
E, por alguns instantes,
ela também.
Silvia Marchiori Buss
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