O Vento Que Ficou


Ele chegou como uma rajada de vento.

Eu estava em um lugar qualquer, entre pessoas que não conhecia direito, quando ele apareceu. Não houve anúncio, nem aquela cena bonita que às vezes inventamos depois que uma história dá certo.

Ele simplesmente chegou.

Falava com alguém, ria, gesticulava. De vez em quando olhava para o meu lado.

Eu também olhei.

Naquele dia, não aconteceu nada de extraordinário.

Conversamos pouco. Eu nem lembro direito sobre o que.

Lembro que, quando fui embora, pensei nele.

No dia seguinte, ele apareceu de novo.

Depois, encontramos um motivo para conversar.

E outro.

E outro.

Aos poucos, os encontros foram ficando mais frequentes. Um café depois do trabalho. Um jantar que deveria ser rápido e terminava tarde. Uma caminhada sem destino. Um telefonema que começava com uma pergunta qualquer e, quando percebíamos, já tinha passado uma hora.

Eu gostava de ouvi-lo falar.

Ele tinha um jeito próprio de contar as coisas. Às vezes exagerava, às vezes esquecia uma parte da história e voltava para contar de novo.

Eu ria.

Ele ria de eu rir.

E fomos ficando.

Não sei exatamente em que momento deixamos de ser duas pessoas que estavam se conhecendo e passamos a fazer planos juntos.

A vida foi acontecendo no meio disso.

Vieram os cafés da manhã, as viagens, as contas, as compras, os amigos, a família, as preocupações.

Vieram também as pequenas irritações.

A toalha fora do lugar.

A porta do armário aberta.

O copo deixado sobre a mesa.

Coisas que pareciam importantes na hora e que hoje eu mal consigo lembrar.

Havia os nossos silêncios também.

Aqueles em que não era preciso preencher nada.

Ele sentava perto de mim e ficava ali.

Às vezes, sua mão encontrava a minha.

Na rua.

No carro.

Durante o café.

No meio de uma conversa.

Depois de tantos anos, eu conhecia suas mãos tanto quanto conhecia seu rosto.

Conhecia o jeito como segurava a xícara, como mexia nas chaves, como passava a mão pelos cabelos quando estava pensando.

Conhecia a voz dele chegando da outra peça da casa.

Conhecia seus passos.

Conhecia até o silêncio.

E o tempo foi passando.

Um ano.

Depois outro.

Depois tantos que já não fazia sentido contar.

Aquele homem que tinha chegado de repente já fazia parte dos meus dias de uma maneira tão natural que eu não saberia dizer onde terminava a vida dele e começava a minha.

Às vezes penso naquele primeiro dia.

Naquele homem que chegou como uma rajada de vento, sem que eu soubesse ainda quantas coisas aquela chegada iria carregar.

Hoje, quando caminho pela cidade, o vento passa pelo meu rosto e mexe meus cabelos, eu sigo andando.

Há dias em que ele é apenas vento.

Em outros, traz de volta uma voz, uma risada, duas mãos procurando as minhas.

E eu caminho mais um pouco, sentindo o ar mudar ao meu redor.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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