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Mostrando postagens de junho, 2026

Foi Então Que Nasci

Quando lhe perguntavam a idade, Silvana respondia com duas datas. A primeira era a do registro, escrita numa certidão já amarelada pelo tempo. A segunda ninguém encontraria em documento algum. Era o dia em que conheceu Miguel. Antes disso, havia uma menina que cumpria horários, tirava boas notas, ajudava em casa, sorria quando esperavam que sorrisse. Cresceu como crescem tantas meninas: aprendendo a ocupar pouco espaço, a pedir licença até para existir. Não era infeliz. Mas também não sabia que estava viva. O mundo lhe parecia uma sala onde as janelas nunca eram abertas por inteiro. Havia luz suficiente para enxergar os móveis, nunca o horizonte. Foi Miguel quem, sem perceber, escancarou uma delas. Não porque fosse um herói. Não porque tivesse respostas. Apenas porque caminhava pela vida com a estranha mania de notar o que quase ninguém via. Via o desenho das nuvens antes da chuva. O perfume do café que escapava da cozinha da vizinha. As árvores que mudavam de cor...

Quando Tudo Se Torna Ilusão

  Havia dias em que Marina tinha a impressão de morar dentro de uma casa feita de vidro. Não porque as paredes fossem transparentes, mas porque tudo o que parecia sólido acabava revelando pequenas rachaduras. Começou devagar. Uma amizade que jurava eternidade desapareceu sem uma explicação que coubesse numa conversa. Um amor que prometia atravessar tempestades desistiu ao primeiro vento mais forte. O trabalho ao qual entregara anos de dedicação mudou de mãos e de prioridades, como se sua história pudesse ser guardada numa caixa qualquer. Até os lugares mudavam. A padaria onde o padeiro sabia seu nome fechou. A árvore da praça foi derrubada depois de uma tempestade. A casa da infância ganhou outra cor, outro portão, outras vozes. Era estranho descobrir que até as lembranças podiam perder o endereço. Marina passou a desconfiar das certezas. Quando alguém dizia "para sempre", ela escutava apenas o eco de uma palavra bonita. Quando lhe prometiam que nada mudaria, sorr...

O Que Sobrou do Dia

O leilão terminava sempre do mesmo jeito. As vozes iam diminuindo, os caminhões eram carregados às pressas e alguém, inevitavelmente, perguntava o que fazer com aquilo que ninguém quis. Era a parte menos interessante para quem comprava e a mais curiosa para Eduardo, que nunca levantava a placa para disputar um lance. Gostava de ficar até o fim. Os objetos pareciam mudar de   personalidade quando deixavam de despertar interesse. Enquanto estavam sobre o estrado, eram antigos, valiosos, raros. Bastava o martelo anunciar o último lote para se transformarem em estorvo. Naquela tarde, um funcionário arrastou uma mala de couro escurecida pelo tempo. — Essa vai embora junto com o resto. Eduardo olhou sem muita atenção. A mala tinha riscos profundos, um fecho torto e uma etiqueta quase ilegível presa à alça. Não chamava a atenção pela beleza. Chamava pelo abandono. Comprou-a por um valor simbólico. Levou-a para casa e a deixou no escritório, perto da janela. Durante dias,...

A Lua Que Parecia Sol

Às duas da madrugada, a praça estava iluminada como uma manhã de verão. Não havia postes acesos nem refletores ligados. A claridade vinha do céu. Quem saiu à rua primeiro ficou parado, sem entender. Acima dos telhados, pairava uma esfera dourada tão intensa que fazia as sombras se esconderem debaixo dos bancos, das árvores e das marquises. Era a lua. Ou pelo menos ocupava o lugar onde a lua deveria estar. As portas começaram a se abrir. Surgiram pessoas de roupão, de chinelos, com os cabelos ainda marcados pelo travesseiro. Algumas apontavam para o céu. Outras apenas observavam, como quem teme quebrar um encanto ao dizer qualquer palavra. Os cachorros latiam sem descanso. Um ou outro galo arriscava um canto confuso. Nos jardins, flores acostumadas à escuridão abriram as pétalas antes da hora. A cidade levou algum tempo para aceitar o que via. Aquela não era uma lua mais brilhante que o normal. Parecia um sol perdido no meio da noite. As horas passaram devagar. Nin...

A Mulher que Colecionava Amanhãs

Quando perguntavam por que guardava tantas coisas, Clara respondia sem pensar: — Um dia ainda vou precisar. A frase servia para um vestido comprado e nunca usado, para uma caixa de botões herdada da mãe, para um livro com páginas amareladas e para uma xícara rachada que já não combinava com nenhuma outra. Quem entrava em sua casa tinha a impressão de que tudo estava em ordem. As estantes eram limpas, os armários fechavam sem esforço, as cortinas deixavam a luz entrar na medida certa. Nada parecia excesso. Mas cada objeto ocupava um lugar reservado para um amanhã. Havia o caderno onde escreveria suas memórias quando tivesse tempo. A máquina de costura que voltaria a funcionar depois da aposentadoria. O mapa da Patagônia comprado numa livraria de aeroporto, dobrado com cuidado havia mais de dez anos. Um par de botas para as caminhadas que começariam assim que o joelho melhorasse. Fotografias ainda sem moldura porque, mais adiante, reformaria a sala. Clara nunca dizia "nu...

Do Outro Lado do Espelho

Helena tinha o hábito de conversar com os espelhos. Não porque acreditasse em magia. Nem porque esperasse respostas. Apenas havia dias em que o reflexo parecia mais disposto a escutar do que as pessoas. O espelho do corredor era antigo. Herdado da mãe, carregava pequenas manchas escuras nos cantos e uma moldura de madeira marcada pelo tempo. Quem o observasse diria que precisava ser restaurado. Helena pensava o contrário. Gostava das marcas. Elas lhe pareciam honestas. Numa tarde de chuva, enquanto a água deslizava pelos vidros da janela, ela parou diante dele por mais tempo que o costume. A mulher refletida tinha os mesmos olhos castanhos, os mesmos cabelos já rendidos aos fios prateados. E, no entanto, parecia outra. Talvez porque ninguém seja exatamente o mesmo depois de atravessar certas tempestades. Helena passou a mão pela moldura. Lembrou-se da menina que queria ser bailarina. Da jovem que acreditava que o amor resolveria tudo. Da mulher que correu contra relóg...

Fantasias e Verdades

Todos nós carregamos fantasias. Não aquelas de carnaval, com brilhos e máscaras coloridas, mas as que moram dentro da cabeça. As que inventamos para suportar o que ainda não entendemos. As que criamos para preencher os espaços vazios da vida. Fantasiamos que o amor será para sempre. Que nossos pais estarão conosco eternamente. Que teremos tempo de sobra para dizer o que sentimos. Que os filhos nunca crescerão. Que a saúde é um direito adquirido e não um empréstimo silencioso. As fantasias não são mentiras. Muitas vezes são apenas esperanças vestidas de certeza. O problema começa quando confundimos fantasia com verdade. A fantasia diz que a felicidade é um lugar onde se chega. A verdade mostra que ela mora em pequenas visitas inesperadas. A fantasia promete que um dia tudo estará resolvido. A verdade ensina que a vida não se resolve; ela se vive. A fantasia nos faz acreditar que as pessoas que amamos jamais mudarão. A verdade mostra que todos estamos em constante tra...

Chuva e Lágrimas

Ela descia a Avenida Paulista no mesmo compasso em que as lágrimas banhavam seu rosto. A chuva caía fina, insistente, dessas que não assustam ninguém, mas acabam molhando tudo. Os guarda-chuvas coloridos formavam uma procissão apressada. Pessoas entravam e saíam de prédios, atravessavam ruas, falavam ao telefone, carregavam sacolas, protegiam os cabelos. Ninguém prestava atenção nela. E aquilo era um alívio. Havia dias em que a solidão pesava mais quando alguém perguntava se estava tudo bem. Os sapatos já estavam encharcados. A barra da calça colava nas pernas. Os cabelos escuros escorriam sobre os ombros como fios de tinta. Ainda assim, ela continuava andando. Passou por uma banca de jornal. Pelo cheiro de café que escapava de uma cafeteria. Pelo músico de rua que insistia em tocar um saxofone sob uma marquise estreita. A cidade seguia seu ritmo indiferente. Ela também já fora assim. Correndo de reunião em reunião, reclamando do trânsito, consultando o relógio mais v...

O Mundo Em Suas Asas

Ivete sempre teve um mapa-múndi pendurado na parede da cozinha. Não era um mapa bonito. As pontas estavam amareladas, havia marcas de fita adesiva nos cantos e algumas manchas de café denunciavam os anos passados diante dele. Mesmo assim, era o objeto mais precioso da casa. Todas as manhãs, antes de sair para o trabalho, ela parava alguns segundos diante daquele pedaço de papel. Percorria com os dedos cidades de nomes sonoros, mares de azul profundo, cordilheiras que pareciam desenhadas por artistas distraídos. Mas a vida de Ivete acontecia em outro lugar. Acordava cedo, cuidava da mãe idosa, trabalhava o dia inteiro, resolvia contas, consultas médicas, pequenos consertos domésticos e todas aquelas tarefas invisíveis que ocupam uma existência inteira. Viajar era um sonho guardado na gaveta das coisas improváveis. Numa noite de inverno, depois de mais um dia comum, adormeceu na poltrona da sala. Foi então que ouviu uma voz suave. — Você continua olhando o mapa. Ao ergu...

A Primavera Que Chegava Pela Porta

Ele chegava como chega uma brisa de primavera… leve, suave e refrescante. Não fazia barulho ao entrar na casa. Era como se o próprio silêncio o reconhecesse antes da chave tocar a porta. Trazia consigo o cheiro da rua depois da chuva, um perfume discreto de sabonete barato misturado ao vento, e aquela maneira calma de ocupar os espaços sem empurrar nada para fora do lugar. A menina sempre sabia quando ele estava chegando. Mesmo pequena, corria até a janela antes de qualquer aviso. Não porque ouvisse seus passos, mas porque certas pessoas deixam um movimento diferente no mundo quando se aproximam. Como árvores que se mexem antes da tempestade. Como cortinas que respiram antes da janela abrir. O pai sorria ao vê-la esperando. — Já sabia que eu vinha? Ela nunca respondia. Apenas se jogava em seus braços com a força das crianças que ainda acreditam que o amor impede qualquer partida. Ele trabalhava demais. As mãos tinham marcas de ferramentas, pequenos cortes esquecidos e um c...

Pisando em Ovos

Beatriz costumava dizer que a vida já lhe tinha ensinado quase tudo. O quase era importante. Sempre aparecia alguém ou alguma situação para desmentir a frase. Professora aposentada, dona de um riso fácil e de uma coleção de histórias acumuladas em décadas de salas de aula, ela atravessara doenças, dificuldades financeiras, separações inesperadas e despedidas dolorosas. Sobrevivera a todas elas com uma mistura curiosa de teimosia e bom humor. Mas bastava encontrar Jussara no corredor do prédio para perder a desenvoltura. E isso a divertia e a irritava na mesma medida. As duas eram vizinhas havia mais de trinta anos. Jussara era o tipo de pessoa que parecia ter assinado um contrato vitalício com a reclamação. Se fazia calor, era um absurdo. Se fazia frio, uma tragédia. Se chovia, a cidade estava abandonada. Se fazia sol, vinha uma seca sem precedentes. Quando o elevador funcionava, demorava demais. Quando chegava rápido, devia estar estragado. Nada escapava. — B...

Falando Com as Estrelas

Naquela noite, Ludmila não procurava respostas. A idade lhe ensinara que elas costumam chegar quando já não são tão necessárias. Sentou-se na varanda com uma manta sobre os ombros. A cidade se espalhava em pequenas luzes pelas colinas. Acima dela, o céu exibia sua antiga coleção de estrelas. Havia quem falasse com santos. Havia quem falasse com fotografias. Ludmila falava com as estrelas. Não porque acreditasse que elas respondiam. Gostava apenas da sensação de poder dizer qualquer coisa sem ser interrompida. Durante a vida inteira, acumulou perguntas. Por que algumas pessoas partem cedo? Por que certos amores permanecem mesmo quando já não têm presença? Por que a memória guarda o cheiro de uma tarde distante e esquece fatos acontecidos ontem? As estrelas nunca responderam. Ainda assim, ela voltava. Naquela noite, falou de coisas simples. Contou que o ipê da rua florescia menos do que antigamente. Que as crianças do bairro haviam crescido. Que os rostos ...

Vem Que Te Enfrento

  A placa estava ali havia anos. Pequena, enferrujada, presa a um mourão torto na beira da estrada. VEM QUE EU TE ENFRENTO Os que passavam inventavam histórias. Briga de vizinhos. Disputa por terras. Desafio de alguém que já nem estava vivo. Laura também inventara as suas. Durante muito tempo acreditou que aquelas palavras pertenciam a alguém. Nunca lhe ocorreu que pudessem pertencer a ela. Naquela manhã de inverno, estacionou o carro sem saber exatamente por quê. O campo estava coberto por uma névoa fina. Os cavalos pareciam recortados no branco, imóveis como figuras esquecidas depois que a festa acaba. Ela caminhou até a cerca. O frio entrou pelas mangas do casaco. Leu a frase uma vez. Depois outra. E mais uma. Curioso como certas palavras passam anos diante dos nossos olhos sem conseguir entrar. Até o dia em que encontram uma fresta. Laura pensou na carta dobrada dentro de um livro que nunca teve coragem de enviar. Pensou no número de tele...