Quando és Tua Própria Salvação
Naquela manhã, ela acordou
antes do despertador.
Ficou alguns minutos
olhando para o teto, sem vontade de levantar e sem conseguir voltar a dormir. A
casa estava silenciosa. Na cozinha, havia uma xícara esquecida na pia desde a
noite anterior e, sobre a mesa, um papel com duas coisas escritas: pagar a conta
de luz e ligar para o banco.
Era pouco.
Naquele momento, parecia
muito.
Levantou devagar, abriu a
janela e deixou entrar o ar frio da manhã. Fez café para uma pessoa. Durante
anos, tinha feito café para duas. Ainda demorava alguns segundos para lembrar
que não precisava mais colocar a segunda xícara.
Sentou-se à mesa.
O telefone tocou.
Ela olhou, mas não atendeu.
Sabia quem era. Sabia
também o que ouviria: perguntas, conselhos, preocupação. Não estava com
disposição para explicar como tinha passado a noite.
Depois de alguns minutos, o
telefone parou.
Ela terminou o café, lavou
a xícara e foi tomar banho.
Vestiu uma calça antiga,
uma blusa azul e penteou os cabelos diante do espelho. Havia uma marca de
travesseiro no rosto. Passou a mão sobre ela e sorriu, quase sem querer.
Na rua, o movimento
começava.
Carros, ônibus, gente
atravessando apressada. Uma mulher carregava uma criança pela mão. Um homem
esperava o sinal abrir. Um cachorro puxava o dono pela guia.
Tudo continuava.
Ela também.
Não porque tivesse
encontrado uma resposta.
Não porque tivesse ficado
forte durante a noite.
Não porque alguém tivesse
dito alguma coisa capaz de mudar o que estava acontecendo.
Apenas porque precisava
atravessar aquela manhã.
Entrou no banco, resolveu o
que precisava resolver e saiu com menos dinheiro do que tinha entrado.
Parou na calçada.
Por um instante, pensou em
voltar para casa.
Depois atravessou a rua e
entrou numa padaria.
Pediu um pão na chapa e
outro café.
Sentou perto da janela.
Enquanto esperava, abriu a
bolsa e encontrou um bilhete antigo, dobrado várias vezes. Reconheceu a letra
antes mesmo de ler.
Não abriu.
Guardou de volta.
O café chegou.
Ela segurou a xícara com as
duas mãos e ficou olhando para o movimento da rua.
Havia dias em que ainda
esperava que alguém viesse buscá-la daquele lugar.
Naquele dia, não.
Naquele dia, levantou,
pagou a conta e voltou para casa.
À tarde, trocou uma lâmpada
que estava queimada havia semanas.
À noite, colocou lençóis
limpos na cama.
Antes de dormir, conferiu o
despertador.
Arrumou a mesa do café para
o dia seguinte, deixou a segunda xícara guardada no armário.
Não foi uma grande decisão.
Foi só uma xícara.
Mas naquela noite, quando
apagou a luz, percebeu que havia passado o dia inteiro sem pedir licença para
continuar vivendo.
Silvia Marchiori Buss
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