A Mágica das Mãos
Acho que uma das partes
mais bonitas do corpo humano são as mãos.
Talvez eu ache isso porque
as minhas nunca foram bonitas.
São grandes, finas,
compridas. “Mãos de gringa”, dizia minha mãe. Nunca consegui ter aquelas unhas
longas, bem-feitas, pintadas de vermelho, vinho, azul, essas cores que deixam
as mãos tão femininas. As minhas unhas quase sempre foram cor de unha mesmo. E
eu nunca tive muita paciência para transformá-las em outra coisa.
Mas gosto de olhar para as
mãos.
Gosto de reparar nelas.
Há alguma coisa de mágico
naquele conjunto de dedos que se movimenta e, sem dizer uma palavra, consegue
conversar.
As mãos inventaram uma
espécie de idioma que não precisa de tradução.
Um aceno pode dizer “oi”,
“tchau”, “vem”, “vai embora”. Um polegar levantado pode significar que está
tudo bem. Dois dedos podem formar um V, e dependendo do lugar, da época e da
intenção, aquilo pode dizer coisas diferentes.
Uma mão sobre o peito pode
agradecer.
Duas mãos juntas podem
pedir.
Uma mão estendida pode
oferecer.
E uma mão fechada também
fala.
Às vezes, fala coisas que
preferíamos não ouvir.
As mesmas mãos que
acariciam podem empurrar. Podem abraçar ou afastar. Podem fazer um carinho no
rosto de alguém ou ferir esse mesmo rosto. Podem enxugar uma lágrima ou
provocá-la.
Podem construir uma casa e
podem destruí-la.
Podem escrever uma carta de
amor e assinar uma sentença.
Podem apertar o gatilho de
uma arma ou segurar a mão de alguém que está morrendo.
É estranho pensar que o
mesmo corpo que tem mãos capazes de salvar também pode usá-las para matar.
Talvez por isso eu goste
tanto delas.
Porque as mãos não são boas
nem ruins.
São nossas.
E talvez carreguem, nos
seus movimentos, um pouco daquilo que somos naquele instante.
Há mãos que trabalham uma
vida inteira. Mãos de agricultor, de cozinheira, de pedreiro, de costureira, de
médico, de músico. Mãos que envelhecem antes do resto do corpo, que ficam
marcadas, ásperas, tortas, queimadas pelo sol ou pelo trabalho.
E há mãos que quase não
fizeram esforço físico, mas que carregam outras marcas.
As mãos de uma mãe
ajeitando o cabelo do filho.
As mãos de um pai ensinando
uma criança a andar de bicicleta.
As mãos de dois velhos
ainda entrelaçadas depois de tantos anos.
As mãos de alguém que
segura um café enquanto conversa.
As mãos que procuram outras
mãos no escuro.
Talvez nenhum gesto seja
tão bonito quanto esse.
Também existem mãos que já
não podemos tocar.
E é curioso como a memória
guarda mãos com uma precisão que às vezes surpreende.
Lembramos do tamanho, dos
dedos, das veias, de algum sinal, da maneira de segurar uma xícara, de abrir
uma porta, de mexer no cabelo.
Eu me pergunto se as mãos
também guardam memória.
Se lembram de quantas
pessoas tocaram.
De quantos abraços deram.
De quantas despedidas
fizeram.
De quantas vezes foram
estendidas esperando uma outra mão.
As mãos também mentem.
Um aplauso pode ser sincero
ou apenas educado. Um aperto de mão pode esconder antipatia. Uma carícia pode
não significar amor. Um gesto de aproximação pode ser uma ameaça.
Por isso, nem sempre basta
olhar para o movimento.
É preciso conhecer quem
está fazendo.
Ainda assim, existe uma
linguagem das mãos que atravessa fronteiras.
Quando não sabemos falar
francês, italiano, alemão ou qualquer outra língua, apontamos, acenamos,
fazemos um gesto de pergunta, de agradecimento, de despedida.
E, de algum jeito, quase
sempre nos entendemos.
Talvez seja essa a grande
mágica das mãos.
Elas conseguem dizer aquilo
que a boca não sabe, não quer ou não pode dizer.
E talvez sejam também uma
das poucas partes do nosso corpo capazes de transformar uma palavra em gesto.
Eu continuo olhando para as
minhas, grandes e finas, de “gringa”, como dizia minha mãe.
Sem unhas compridas.
Sem esmalte colorido.
Do jeito que sempre foram.
E hoje acho que talvez eu
tenha passado tempo demais preocupada com a beleza delas.
Porque, pensando bem,
minhas mãos fizeram coisas muito mais importantes do que ficar bonitas.
Elas escreveram.
Trabalharam.
Seguraram.
Acariciaram.
Apontaram caminhos.
Enxugaram lágrimas.
Apertaram outras mãos.
E continuam aqui.
Dizendo coisas que, às
vezes, eu nem percebo.
Hoje caminhei pela cidade.
O sol estava quente, havia
gente passando, carros, vozes, vitrines, a vida acontecendo ao meu redor.
E, no meio de tudo isso,
senti o calor e o toque das tuas mãos.
Não sei explicar.
Talvez nem queira.
Há coisas que a gente sente
sem precisar entender.
Caminhei mais um pouco, com
essa lembrança nas minhas mãos, no meu corpo, no meu silêncio.
E pensei que algumas mãos
continuam dizendo coisas mesmo depois de não poderem mais nos tocar.
As tuas continuam falando
comigo.
“ Je T´aime pour toujours, mon amour”
Silvia Marchiori Buss
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