"Whos`s Holding Donna Now....Quem Está Com Você agora.."

O rádio não tocava alto. Nunca mais. Ficava ali, numa altura suficiente para não preencher o quarto inteiro — só um canto dele, como se a música também tivesse aprendido a não invadir.

A primeira vez que aquela canção voltou, ela não prestou atenção no início. Estava na cozinha, abrindo e fechando gavetas sem precisar de nada específico. O som veio como vêm certas lembranças: sem pedir licença, mas sem força suficiente para ser impedido.

Foi só no refrão que o corpo reconheceu antes da cabeça.

Uma frase repetida, simples demais para não doer.

Ela parou com a mão dentro da gaveta.

Ficou assim por alguns segundos, como se estivesse esperando que a música passasse sozinha, como passam os carros na rua. Mas não passou. Continuou ali, insistente.

Who’s holding Donna now? — Quem está com você agora?
Who’s heart is she gonna take? — Quem ocupa o meu lugar?
Does she still care? — Será que ainda existe um pedaço de nós em algum lugar?

Ela fechou a gaveta devagar.

Encostou na pia.

Não era tristeza grande. Era mais exata que isso.

Houve um tempo em que aquela música não era uma pergunta.

Era só trilha.

Tocava no carro, em viagens sem pressa, quando o caminho importava menos que o fato de estarem indo juntos. Às vezes cantavam errado, inventando partes, rindo de qualquer coisa que não precisava ser engraçada. Outras vezes, ficavam em silêncio — e o silêncio não incomodava.

Ela lembra das mãos no volante. Do jeito como ele batia os dedos no ritmo, sem perceber. Lembra da luz entrando pela janela e desenhando metade do rosto dele, como se o dia escolhesse um lado.

Nada ali parecia passageiro. Mas, talvez fosse.

A música acabou, mas deixou um rastro. Como cheiro de algo que já não está.

Ela voltou a se mexer, mas com um atraso mínimo, como se o tempo tivesse perdido um passo.

Abriu a torneira. A água correu.

Não havia nada para lavar.

Depois, a canção voltou outras vezes.

No rádio do carro, quando ela menos esperava.
Num café qualquer, entre vozes que não conhecia.
Até numa loja, misturada a outras músicas que não significavam nada.

Sempre a mesma pergunta, repetida como quem não aceita resposta.

Ela nunca desligava.

Também não cantava.

Deixava passar.

As lembranças não vinham inteiras.

Eram pedaços.

A camisa esquecida numa cadeira por dias.
O som da chave girando na porta no fim da tarde.
Um comentário qualquer, dito sem importância, que agora parecia ter sido o último.
Uma tarde em que choveu pouco — e eles não correram.

Nada disso tinha peso suficiente sozinho.

Mas juntos, formavam uma presença difícil de explicar.

 

Numa noite, a música tocou outra vez.

Ela estava sentada perto da janela. Não fazia frio, mas também não era calor. O tipo de noite que não se define.

Dessa vez, ela ouviu até o fim.

Sem interromper. Sem se mover.

Quando terminou, o silêncio que ficou não era vazio.

Era ocupado por tudo aquilo que não tinha mais lugar.

Ela pensou em levantar, fazer qualquer coisa, mudar de ambiente, abrir outra música.

Não fez.

Ficou ali.

Como se, por alguns minutos, bastasse continuar.

Sem responder à pergunta.

Sem tentar calar.

Só ficando.

 

- Who’s holding Donna now? — Quem está com você agora?

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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