O Lugar Onde a Dor Não se Delega
Há um ponto em que a dor deixa de procurar saída nos outros e começa a pedir lugar dentro de quem a carrega.
Não acontece de forma nobre.
Nem clara. É mais como um cansaço de explicar o que não cabe em palavra
nenhuma. A pessoa percebe, aos poucos, que repetir a história não muda o que
foi perdido — seja uma morte, uma separação, um futuro que não chegou a existir,
uma decepção que ficou aberta como uma porta que ninguém fecha.
É aí que o amor-próprio deixa
de ser ideia e passa a ser gesto.
Um gesto pequeno, quase
invisível: parar de se abandonar no meio da própria dor.
Não é se consolar com frases
prontas. Não é se convencer de que “vai passar”. É algo mais duro e mais
honesto: ficar. Ficar com o que dói sem tentar se trair para caber melhor no
entendimento dos outros. Sem diminuir o que sente para não incomodar. Sem exagerar
para ser visto.
Ficar.
Nesse ficar, nasce uma força
que não aparece para fora. Não é a força de quem supera. É a de quem sustenta.
Quem entende que compartilhar é escolha — não porque o outro possa carregar,
mas porque, em alguns momentos, dividir o silêncio pode ser menos pesado do que
sustentá-lo sozinho.
Mas o centro não se move mais.
A dor continua sendo
intransferível. O que muda é a forma de estar com ela. Quando o amor-próprio
chega, ainda que em fragmentos, a pessoa para de pedir que o mundo resolva o
que só pode ser atravessado por dentro.
E isso não traz alívio
imediato.
Mas traz um tipo de dignidade
silenciosa: a de não se abandonar enquanto tudo, por dentro, ainda está em
ruína.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário