O Outro Lado da Moeda

A moeda ficou esquecida no fundo da bolsa, entre um lenço amarrotado e um papel onde já não se distinguia o que fora escrito. Não era rara, nem antiga, nem brilhava mais do que qualquer outra. Ainda assim, havia nela um peso que não vinha do metal.

Sofia a encontrou por acaso, procurando algo que não lembrava exatamente o que era. Tirou-a com dois dedos, como quem recolhe um pequeno resto de mundo, e deixou-a repousar na palma da mão. Girou-a uma vez, sem olhar. O gesto automático de quem já decidiu tantas coisas no ar.

Cara.

Ou talvez não.

A luz da tarde entrava enviesada pela janela, tocando o relevo gasto. De um lado, um rosto que já perdera a nitidez. Do outro, números quase apagados. Era difícil saber onde começava um e terminava o outro — como certas lembranças que, com o tempo, deixam de ter borda.

Sofia apoiou a moeda na mesa. Ficou olhando, como se ela pudesse devolver alguma resposta que não havia sido feita em voz alta.

Havia dias em que tudo parecia resolvido demais. Como se a vida tivesse sido organizada em prateleiras invisíveis: o que foi, o que não foi, o que ainda poderia ser. E havia dias, como aquele, em que bastava um objeto pequeno para desmontar o equilíbrio silencioso.

Ela pegou a moeda novamente.

Girou.

Dessa vez, acompanhou o movimento. O giro rápido, o brilho curto, o instante suspenso onde nenhuma face se afirmava. Ali, entre o ar e a queda, existia algo que não se deixava nomear. Nem escolha, nem acaso. Apenas um intervalo.

A moeda caiu sobre o dorso da mão.

Sofia não virou.

Ficou assim, com a mão fechada, como se segurasse um segredo que não lhe pertencia completamente. Sentiu o frio do metal atravessar a pele. Pensou em quantas decisões havia atribuído à sorte quando, na verdade, já carregava dentro de si uma inclinação antiga, quase imperceptível.

Empurrou a moeda de leve, deixando-a cair na mesa.

Rolou um pouco antes de parar.

Dessa vez, ela não se apressou em ver. Havia algo mais interessante no caminho do que no resultado. No pequeno desvio, no quase cair da borda, no instante em que parecia que iria escapar e não escapou.

Sofia encostou o queixo na mão.

Do lado de fora, alguém passava com pressa. Um som de passos que não se repetiria igual. Um carro distante. Uma janela sendo fechada em algum outro lugar. A vida continuava com uma espécie de indiferença cuidadosa.

Ela finalmente olhou.

Não sorriu. Não se decepcionou.

Apenas virou a moeda com o dedo, sem cerimônia, como quem percebe que ambos os lados sempre estiveram disponíveis — e que o gesto de escolher talvez fosse menos sobre acertar e mais sobre suportar o que permanece depois.

A moeda ficou ali, entre uma face e outra, virada ao acaso ou não.

Sofia levantou-se, deixou a bolsa aberta, o lenço caído, o papel indecifrável.

Antes de sair do cômodo, voltou um passo.

Cobriu a moeda com a mão, sem pegá-la.

Como se, por um instante, fosse possível interromper o mundo exatamente no ponto em que ele ainda não decidiu de que lado fica.

Parte superior do formulário

 

Parte inferior do formulário

Silvia Marchiori Buss

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Navegando na Ausência

O Silêncio da Professora

As Bruxas Estão Soltas...