Aquela Parte da Vida Que Não Volta

Não começou com uma lembrança.

Começou com um erro pequeno — desses que não pedem atenção.

Ela abriu a gaveta errada.

Dentro, não estavam os talheres. Nem as contas atrasadas. Nem os remédios organizados por dia da semana. Havia uma meia só, um ingresso dobrado, uma chave que não servia mais para porta alguma e um cheiro muito específico — não de coisa guardada, mas de coisa interrompida.

Fechou a gaveta com cuidado, como se pudesse acordar alguém ali dentro.

Naquela manhã, tudo parecia deslocado alguns centímetros. A mesa, o barulho da rua, até o próprio corpo, como se tivesse sido colocado de volta no lugar com leve imprecisão. Caminhou pela casa testando os objetos com a ponta dos dedos — a cadeira firme, o vidro frio, a borda conhecida da pia. Nada cedia. Era só ela que não encaixava.

Foi então que percebeu: havia uma parte da vida que não estava mais disponível. Não ausente como quem sai de viagem, mas retirada — como uma página arrancada de um livro que continua sendo lido mesmo assim.

Não era luto recente. Nem saudade nova. Era outra coisa. Uma espécie de atraso definitivo.

Sentou-se no chão da cozinha, encostada no armário. Ficou ali sem dramatizar. Sem nomear. Como se esperasse que o corpo resolvesse antes da cabeça.

Lembrou de um gesto que não podia repetir — e não era nada grandioso. Não era despedida, nem declaração. Era um gesto mínimo: dobrar uma manga alheia antes de lavar, ajeitar um travesseiro que não era o seu, empurrar levemente um prato para mais perto de alguém distraído. Coisas sem registro. Sem fotografia. Sem importância oficial.

E, no entanto, irrepetíveis.

Levantou-se devagar, como quem aceita uma regra nova sem concordar com ela. Abriu novamente a gaveta. Dessa vez, não para conferir — mas para reconhecer.

A meia não tinha par.
O ingresso não dava mais acesso.
A chave não abria nada.

Ainda assim, tudo ali insistia em existir como se aguardasse continuidade.

Ela pensou em jogar fora. Em reorganizar. Em dar um destino útil àquilo que não servia mais. Mas percebeu que o problema não era a utilidade. Era o intervalo.

Aquilo pertencia a um tempo que não aceitava substituição.

Fechou a gaveta pela segunda vez — agora sem cuidado algum.

Foi até a janela. Lá fora, as pessoas seguiam em movimentos exatos, resolvendo pequenas urgências, comprando pão, atravessando ruas com convicção. Ninguém parecia carregar partes incompletas.

Ou talvez carregassem melhor.

Ficou ali até perceber que o dia não iria interrompê-la de volta. Que não haveria um momento exato de retomada. Que certas continuidades são apenas uma insistência disfarçada.

Antes de sair de casa, passou pela cozinha outra vez. Não abriu a gaveta.

Mas também não esqueceu dela.

E isso — não esquecer, sem poder usar — passou a ocupar um lugar preciso. Não no passado, como seria mais fácil, mas no presente — como um objeto que se mantém sobre a mesa mesmo depois de não servir para mais nada.

Saiu sem pressa.

Na rua, nada devolvia o que havia sido retirado.
Mas também não pedia explicação.

E, ainda assim, alguma coisa ali se alinhava —
nem um tantinho antes,
nem um tantinho depois.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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