As Coisas Que Não Dizemos
O jantar já tinha esfriado quando Laís percebeu que Vitor não viria à mesa.
Não era atraso. Era ausência —
dessas que começam pequenas, quase educadas, e vão ficando mais largas com o
tempo. Ele estava no outro cômodo, ela sabia. O som baixo da televisão
atravessava o corredor, junto com aquela sensação antiga de que havia algo entre
eles que não cabia mais em palavra nenhuma.
Ela não chamou.
Antes, chamava. Dizia o nome
dele com uma naturalidade que hoje parecia pertencer a outra casa, outra
mulher. Agora, ficou sentada, olhando o prato, como se ainda esperasse que o
gesto de esperar resolvesse alguma coisa.
Vitor, do outro lado, também
sabia que ela estava ali.
Pensou em levantar. Pensou em
dizer qualquer coisa simples — “já vou”, “me espera”, “estou cansado hoje”. Não
disse. Ficou onde estava, com o controle remoto na mão, mudando de canal sem
realmente ver nada.
Não era falta de assunto. Era
o contrário.
Havia coisas demais acumuladas
entre eles.
O dia em que ele esqueceu de
perguntar como tinha sido a consulta dela.
A vez em que ela ouviu, mas fingiu não ouvir, quando ele disse que estava
exausto.
As pequenas irritações guardadas como quem guarda moedas num bolso furado —
sempre caindo, sempre fazendo falta.
Nenhuma dessas coisas parecia
suficiente para uma conversa.
Mas juntas, ocupavam tudo.
Laís levantou da mesa, levou o
prato até a pia e deixou ali, sem lavar. Não por cansaço. Por falta de motivo.
A casa estava silenciosa demais para gestos completos.
Passou pela porta da sala.
Vitor levantou os olhos por um
segundo. Foi rápido, quase automático. Um reflexo antigo de quem ainda
reconhece a presença do outro. Ela também olhou. Os dois sabiam que aquele era
um momento possível.
Mas momentos possíveis exigem
uma coragem que nem sempre aparece.
Ela seguiu até o quarto.
Ele voltou para a televisão.
Mais tarde, deitados, o espaço
entre os dois parecia maior do que a cama. Não havia briga, não havia mágoa
declarada. Só aquele tipo de distância que não faz barulho — e por isso mesmo
demora mais para ser percebida.
Vitor pensou em dizer:
“Você está diferente.”
Laís pensou em responder,
antes mesmo de ouvir:
“Eu sempre fui assim.”
Mas ninguém falou nada.
O corpo dele virou de lado. O
dela também, em direção oposta. Não por rejeição. Por hábito.
Havia ali uma história inteira
que continuava existindo — nos móveis, nas fotos, nos gestos repetidos. Mas já
não passava pela voz.
E, ainda assim, no escuro, os
dois permaneceram acordados por mais tempo do que admitiriam.
Não pensando em terminar.
Nem em recomeçar.
Só presos naquele lugar
difícil onde tudo ainda existe —
menos aquilo que um dia foi dito em voz alta.
Silvia Marchiori Buss
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