Fora de Quatro Paredes
O vento era o primeiro a tocar.
Chegava antes das mãos,
antes das palavras, antes mesmo de qualquer decisão. Levantava os cabelos dela
com uma intimidade antiga, dessas que não pedem licença porque já conhecem o
caminho.
Eles não tinham marcado
nada. Nem hora, nem gesto, nem o que fariam com o encontro. Apenas saíram —
cada um de um lado da cidade — como se obedecessem a um chamado que não vinha
de fora.
Ela o viu primeiro.
Encostado no parapeito de
pedra, olhando o lago como quem tenta decifrar uma superfície calma demais. Não
parecia esperar por alguém. E talvez não estivesse. Havia nele uma quietude que
não era solidão, mas escolha.
Ela se aproximou sem
pressa. Os passos não denunciavam urgência — havia, antes, uma curiosidade
leve, quase um cuidado em não quebrar o instante antes de tocá-lo.
— Você sempre olha assim? —
perguntou, parando ao lado dele.
Ele não se virou
imediatamente.
— Assim como?
— Como se o mundo estivesse
prestes a dizer alguma coisa… e você não quisesse interromper.
Agora ele a olhou.
Não respondeu. Sorriu de
leve, como quem reconhece algo, mas não nomeia.
Ficaram ali, lado a lado,
dividindo o mesmo horizonte, mas não o mesmo pensamento. Havia espaço entre os
dois — um espaço vivo, respirando — e nenhum deles tentou ocupá-lo por inteiro.
Quando as mãos finalmente
se encontraram, não foi um gesto decidido. Foi quase um erro bonito. Um roçar
que poderia ter sido corrigido, evitado, esquecido.
Mas não foi.
Os dedos ficaram.
Sem pressa de se
entrelaçar, sem a ansiedade de afirmar posse. Apenas ficaram, sentindo a
temperatura, o peso, a presença.
— Gosto disso — ela disse,
olhando para frente.
— Disso o quê?
— De não precisar caber.
Ele entendeu.
Não respondeu com palavras.
Apertou a mão dela só o suficiente para ser percebido, não o bastante para
prender.
Caminharam.
Sem destino claro,
desviando de ruas, de gente, de pequenas rotas previsíveis. Havia algo de
improviso naquele percurso — como se cada passo fosse escolhido no momento
exato em que precisava ser.
Pararam sob uma árvore
ainda indecisa entre o inverno e a primavera. Alguns galhos nus, outros já
insinuando folhas. Um meio-termo, como eles.
Ela encostou o corpo no
dele, sentindo cada pedaço. Um gesto simples, mas cheio de intenção.
— Você não pergunta — ela
disse.
— O quê?
— De onde eu venho, para
onde eu vou… o que eu espero disso.
Ele demorou um pouco.
— E você quer que eu
pergunte?
Ela pensou.
— Não.
O silêncio voltou, mas não
era vazio. Era desses que sustentam.
Ele tocou o rosto dela com
cuidado, como se estivesse aprendendo um território que não precisava ser
conquistado. O polegar desenhou um caminho lento, sem pressa de chegar a lugar
nenhum.
Ela fechou os olhos. Não por
rendição, por escolha.
O beijo veio depois — sem urgência. Um encontro que não invadia, não
exigia, não tomava. Apenas acontecia, com a mesma naturalidade do vento que
ainda insistia em passar entre eles.
Não havia paredes. Nem
teto. Nem promessa de permanência.
Havia o corpo presente, o
outro respeitado, e algo raro: a liberdade de não precisar ser menos para caber
mais.
Quando se afastaram, não
houve despedida formal.
Ela ajeitou o casaco, ele
voltou os olhos para o lago.
E, por um instante, parecia
que nada havia mudado.
Mas o espaço entre eles —
aquele que nenhum dos dois quis ocupar por completo — agora carregava outra
densidade. Algo que não se explica, não se prende, não se repete da mesma
forma.
O vento passou de novo.
Dessa vez, levando consigo
um pouco dos dois.
Silvia Marchiori Buss
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