O Prato no Chão

Ela dizia — e repetia como quem se convence — que estava “equilibrando os pratos”.

Não era metáfora bonita. Era barulho mesmo. Porcelana fina, herdada, comprada em promoção, ganhada em casamento. Pratos de todo tipo girando sobre as mãos, os ombros, a ponta de uma disciplina que já não era escolha — era hábito. Três filhos adolescentes orbitando com suas urgências, um marido chamado Augusto que já não perguntava, apenas supunha, e ela no meio, corrigindo provas enquanto mexia a panela, enquanto respondia mensagens, enquanto sorria no lugar certo.

Nada caía.

E esse era o problema.

Porque nada cair exigia um corpo inteiro em estado de alerta. Não havia pausa. Nem distração. Nem falha permitida. A perfeição, naquele caso, não era qualidade — era contenção.

Foi numa tarde comum que algo deslocou. Não um grande acontecimento, nada que justificasse. Um atraso pequeno. Um esquecimento mínimo. Um prato — só um — que escorregou.

Não quebrou.

Mas fez um som.

Um som seco, deslocado, quase ofensivo.

Ela parou.

Não para recolher. Não para verificar o dano. Parou como quem escuta um idioma que não conhecia, mas reconhece. O corpo entendeu antes de qualquer pensamento organizado.

E então veio o erro.

Ela não se abaixou para recuperar o prato.

Deixou ele ali.

Sobre o chão.

Inteiro.

Inútil.

Como se não tivesse mais função.

Naquela noite, Augusto comentou qualquer coisa sobre o jantar não estar no horário. Um dos filhos perguntou por uma camisa limpa. Outro reclamou de uma prova. O terceiro não disse nada — e isso também exigia atenção.

Ela ouviu tudo.

Mas havia um ruído novo.

O prato no chão.

Não fisicamente. Já não estava mais ali. Mas o gesto de não ter se abaixado permaneceu como um objeto dentro dela, ocupando espaço, deslocando o resto.

No dia seguinte, voltou a “equilibrar os pratos”.

Quase todos.

Um ficou de fora.

Depois outro.

E não houve explicação. Nenhum anúncio. Nenhuma ruptura digna de narrativa.

Apenas pequenas ausências.

O jantar que atrasou sem justificativa. A prova corrigida pela metade. A resposta que não veio. O silêncio que não foi preenchido.

Augusto começou a notar. Não o gesto exato, mas o intervalo. Aquela fração de segundo entre o que ele dizia e o que ela respondia — como se ela estivesse em outro lugar, avaliando alguma coisa invisível.

Ela estava.

Olhando para o espaço onde antes cabiam todos os pratos.

E percebendo que o vazio não a derrubava.

Desorganizava, sim. Criava desconforto. Um certo risco de queda.

Mas também abria.

Os filhos seguiram pedindo. Augusto seguiu esperando. A casa seguiu funcionando — não como antes, mas de um jeito que ninguém nomeava.

E ela seguiu.

Não mais tentando manter tudo no ar.

Mas escolhendo, às vezes, o que podia cair.

Sem espetáculo.

Sem justificativa.

Sem redenção.

Só aquele gesto inicial, quase imperceptível, que ninguém viu direito — exceto ela:

o dia em que um prato tocou o chão
e ela não correu para salvá-lo.

Silvia Marchiori Buss

 

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