Entre Dois Lados de Mim
Ela colecionava horários que não usava.
Não eram compromissos. Eram horas exatas que ela guardava
num caderno pequeno, de capa dura, onde anotava coisas como: 16h12 — a luz
bateu na parede do corredor de um jeito que parecia outro lugar. Ou 07h43 — o
café esfriou antes da primeira xícara terminar. Não havia explicação para
aquilo. Nem tentativa de organizar. Apenas acumulava.
Ninguém sabia.
Durante o dia, ela funcionava como qualquer outra pessoa
que cumpre o que precisa ser feito. Respondia mensagens, atravessava ruas,
pagava contas, dizia “depois eu vejo isso” como quem realmente veria. Mas havia
uma atenção paralela, quase invisível, que registrava desvios mínimos — coisas
que não alteravam o rumo de nada, mas também não passavam ilesas.
Foi assim que começou a perceber um atraso.
Não no relógio. Em si.
As coisas aconteciam e, segundos depois, chegavam nela.
Como se houvesse um pequeno intervalo entre o mundo e a sua compreensão. Não
era distração. Era um tipo de defasagem, um eco curto. Primeiro, ignorou.
Depois, passou a esperar.
Um dia, no meio de uma conversa, riu tarde demais. A
outra pessoa já havia mudado de assunto. Ela tentou acompanhar, mas o riso
ficou no ar, deslocado, sem lugar para pousar. Voltou para casa com isso
atravessado.
Abriu o caderno.
Anotou: 19h28 — ri depois que já não havia mais graça.
Ficou olhando a frase por um tempo. Não havia tristeza
ali. Também não havia humor. Era só um registro de algo que não se encaixava.
Nos dias seguintes, o intervalo aumentou.
As respostas demoravam a chegar. Não porque ela não sabia
o que dizer, mas porque o que acontecia ainda não tinha alcançado um ponto
dentro dela onde pudesse ser reconhecido. Era como viver sempre um pouco
depois.
Parou de tentar ajustar.
Começou, em vez disso, a anotar com mais precisão. Horas,
minutos, às vezes segundos. Como se mapear aquele atraso fosse uma forma de
habitá-lo melhor.
Até que, numa tarde comum, algo mudou.
Ela entrou em casa e teve a sensação nítida de já estar
ali. Não um déjà-vu qualquer, desses que passam rápido. Era mais concreto. Como
se uma versão dela tivesse chegado antes e ocupado o espaço — aberto a janela,
deixado a bolsa sobre a cadeira, percorrido os cômodos com familiaridade.
Ela permaneceu na porta.
Não entrou de imediato.
Esperou.
E, por um instante difícil de medir, teve a impressão de
que alcançava aquela outra presença. Não via. Mas coincidiam. Como dois tempos
que, por descuido, se encostam.
Não anotou.
Pela primeira vez, não quis transformar aquilo em
registro.
Atravessou a sala devagar, tocando nos objetos como se
testasse a consistência deles. Tudo estava no lugar. Ou talvez estivesse apenas
suficientemente próximo de estar.
Sentou-se.
Ficou ali, sem procurar entender.
No dia seguinte, voltou ao caderno. Folheou as páginas
cheias de horários que não levavam a lugar nenhum. Pensou em parar. Não por
cansaço, mas porque algo já não precisava mais ser capturado.
Mesmo assim, escreveu.
09h05 — hoje cheguei junto.
Fechou o caderno sem cuidado desta vez, como quem não
teme perder nada dali. Deixou sobre a mesa, meio fora do lugar.
A janela permanecia aberta.
O ar entrava devagar, movendo quase nada. Ainda assim,
alguma coisa na sala parecia levemente deslocada — não o suficiente para ser
corrigida, nem para ser nomeada.
Ela não anotou.
Ficou ali por um tempo que não coube em horário algum.
Silvia Marchiori Buss
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